A crise do método científico e a esquina da Virgínia com a Santa Cecília

Ao contrário do que pode parecer à primeira vista, nem sempre um autor fica feliz por antecipar de forma acertada uma determinada tendência social. Ainda mais se ela diz respeito aos recentes horrores que temos presenciado – e não me refiro, diretamente, à COVID-19 ou a invasão do Capitólio, nos Estados Unidos. Ao longo de 2019, em dois artigos, tentei expor um fenômeno que tem assombrado a comunidade acadêmica: o abandono da racionalidade e da abordagem científica. Os textos em questão são: Magia, horóscopo e bola de cristal na administração (Sociologia da Gestão, abr. 2019) e Bruxaria, oráculos e magia entre os gestores e suas planilhas (em parceria com Daniel Pereira Andrade, GV Executivo, nov./dez. 2019). Nessas duas publicações, um dos objetivos principais era perceber os efeitos do esoterismo e da atual onda anti-intelectual sobre o universo da administração e gestão. Acredito que as as abordagens “quânticas” e místicas, que se multiplicam pela internet e escritórios, dão crédito à percepção de que a ciência anda em baixa nesses espaços.

Mas parece que os problemas extrapolam o nível da caricatura. Os desafios enfrentados ao longo de 2020 foram mais que suficientes para demonstrar o caráter sistêmico da atual crise epistemológica que assola a humanidade. Não se trata de exagero: fato é que perdemos o pé da realidade, da percepção objetiva das relações sociais e daquilo que pode ser considerado conhecimento solidamente construído. O vínculo de confiança do grande público com o método científico, a ciência e os cientistas caminha para algum tipo de colapso. Mesmo que o projeto iluminista e os mais elevados propósitos da modernidade tenham enfrentado sérios reveses desde o século XVIII, parece que estamos diante de um problema de natureza mais radical.

Para ilustrar tal análise, pensemos na década de 1930 e na ascensão do fascismo ao poder, na Europa. Os sacrifícios da reconstrução após a Primeira Guerra Mundial (1914-1918) e a depressão econômica pós-1929 criaram uma sensação de desalento que marcou sociedades inteiras. Esse caldo de frustrações foi temperado pelo surgimento e/ou popularização de novas tecnologias de informação e comunicação de massa, notadamente o rádio e o cinema. A disseminação de ideologias salvacionistas, propagadas por lideranças carismáticas, foi o toque final para o constructo fascista, que jogaria o mundo numa espiral de insanidade até 1945.

A falta de familiaridade com tecnologias disruptivas, sobretudo aquelas capazes de transmitir mensagens massificadas, pode ser um fator de apreensão quanto ao comportamento de indivíduos, comunidades e sociedades inteiras. Numa atitude ingênua, o aparato técnico seria percebido como garantidor, por si, da confiabilidade de um pretenso conhecimento que, na verdade, tratar-se-ia de mera fabulação conspiratória. Para alcançarmos o poder desse constructo, basta entendermos que, sem prejuízo de sua funesta responsabilidade histórica, grande parte de um povo tão educado quanto o alemão abraçou de forma entusiástica o delírio. Delírio da pseudociência, das teorias conspiratórias, das explicações a um só tempo mirabolantes e terrivelmente simples para problemas sociais complexos. O boletim informativo antes do início de um filme no cinema, prática comum à época, seria suficiente para demonstrar:

  • A responsabilidade da comunidade judaica por todas as dificuldades enfrentadas pela Alemanha;
  • O poder dos integrantes dessa comunidade de, tal qual roedores, devorar as riquezas da Alemanha nas horas desertas da madrugada;
  • A aliança existente entre os grandes capitalistas judeus e o bolchevismo internacionalista;
  • Os incríveis benefícios de um projeto de pureza racial ariana;
  • E a notável inteligência de um senhor de bigode ridículo e seu séquito de bajuladores: um pequeno comitê de lideranças que, do alto de sua clarividência, foi capaz de perceber essa articulação de agentes e interesses sinistros.

Assim, o mesmo povo que nos legou o conhecimento de Kant, Hegel, Marx, Nietzsche e Schopenhauer, entre outros, foi capaz de acreditar que todos os judeus da Alemanha seriam empresários capitalistas riquíssimos que se aliaram a comunistas para consumir as riquezas do país. A única solução para essa trama ardilosa seria seguir um sujeito histérico em um projeto cujo resultado final, em tese, seria uma nação de gente branca, loira e de olhos azuis. Segunda Guerra Mundial, campos de concentração e mais de 60 milhões de mortos depois, tudo isso pode soar simultaneamente ridículo e assustador. À época, era o último grito da moda ideológica.

Qualquer polemista medianamente treinado sabe que recorrer ao nazifascismo é o ponto final do fracasso em um debate. A satírica Lei de Godwin estabelece, de forma clara: à medida que uma discussão online se alonga, a probabilidade de surgir uma comparação envolvendo Adolf Hitler ou os nazistas tende a 100%. Contudo, espero que os leitores deste texto tenham um mínimo de sofisticação crítica. Não se trata de comparação direta, nem de dizer que estamos a reviver o fascismo. O propósito deste exercício analítico é o de compreender os pontos de similitude estrutural entre o que vivemos agora e a década de 1930 na Europa.

Ressalva registrada, vamos ao momento presente. O novo meio técnico a emprestar legitimidade a todo e qualquer discurso atende por internet. Esta, bem como seus subprodutos, funcionaria como a chancela de um comitê editorial sério. Em outras palavras: por que uma determinada afirmação é correta/razoável? Ora, porque vi no YouTube, Twitter, no blog de fulano, página de sicrano, corrente de WhatsApp, portal do jornal Y etc. Eis a tecnologia disruptiva com a qual, atualmente, não sabemos lidar. Do mesmo modo como, no passado, não sabíamos como avaliar criticamente o conteúdo ofertado pelo cinema ou rádio. E qual a crise atual, seus responsáveis e os novos arautos da salvação, conforme nos é explicado no mundo virtual?

Primeiro, devemos considerar o contexto histórico. Desde o atentado às torres do World Trade Center, em 2001, o mundo cambaleia entre a islamofobia e o medo do terrorismo. Mesmo que o terror venha de um jovem problemático em alguma escola obscura dos EUA, parece que a culpa é sempre dos muçulmanos. Outro processo determinante, no atual momento histórico, é a interminável crise das economias capitalistas que se iniciou com o colapso do mercado hipotecário dos EUA, em 2008. Tal perturbação não se encerrou até hoje e, somada à avassaladora ascensão chinesa, também é produtora de incertezas. Como explicar essa conjuntura complexa, em que todas as certezas parecem se esfumar? Simples:

  • A culpa, em primeiro lugar, é dos comunistas. Mas você deve ter olhar atento: há comunistas das FARC, do Foro de São Paulo, do PT e da China, que são óbvios. Mas também há comunistas como George Soros, Jorge Paulo Lemann, Vladimir Putin, Barack Obama, Joe Biden, Hillary Clinton, Sérgio Moro, Alexandre Frota, entre vários outros. Todos leitores de Karl Marx e Friedrich Engels, de forma disfarçada ou escancarada;
  • De acordo com fontes da internet – e que, portanto, devem ser confiáveis -, todos esses personagens se unem num grupo comuno-globalista cujos principais objetivos seriam provar o aquecimento global, disseminar o marxismo cultural e a ideologia de gênero. Mesmo que alguns desses agentes digam defender exatamente o contrário;
  • Essa aliança secreta se reúne em espaços secretíssimos, mundo afora, para orquestrar uma nova ordem mundial, que ocorreria a partir do “Grande Reset”;
  • Mas há um bastião moral de resistência e defesa da liberdade, que se apoia firmemente no nacionalismo, renascimento cristão e questionamento de tudo quanto a ciência produziu nos últimos séculos;
  • Quem descobriu essa trama ardilosa? Um ex-astrólogo; um grupo de ex-jornalistas em atividade, que se reúne numa rádio decadente; uma ex-atleta que se julga uma sumidade da Ciência Política; um rapaz que acredita que o verdadeiro espírito cristão se manifesta quando xingamos muito na internet; entre outros personagens de uma versão WASP-tupiniquim de L’armata Brancaleone.

Parece absurdo? O problema é que você encontra bobagens até mais malucas na internet. E para cada delírio conspiratório que ganha destaque, mais outros tantos se criam. E aí você pode deixar a mente solta: vacina que transforma pessoas em jacarés com chips implantados no cérebro para mudança de sexo; a Terra Plana que é o centro do universo; Karl Marx como a manifestação mais pura da demonologia; etc. Mesmo depois de tantas tragédias motivadas pela desinformação e histeria no século XX, parece que não aprendemos muita coisa.

Mas antes que o colega progressista se alegre, gostaria de lembrá-lo do caráter sistêmico da crise anti-intelectual que vivemos. Pode parecer muito engraçado o delírio reacionário descrito acima. Todavia, creio ser importante que os usuários de vermelho também reflitam sobre as práticas que têm adotado, enquanto arrotam amor pela ciência. Nesse campo, existe uma quantidade notável de pessoas estudando tarô e afirmando a infalibilidade de suas capacidades divinatórias. Do mesmo modo, temos especialistas em runas, fazedores de mapas astrais, medidores de auras e energias, todas as variantes do reiki, constelações familiares, cristais, magnetismos, chá de samambaia e tudo aquilo que os habitantes de bairros alternativos adoram e que poderíamos classificar de “terraplanismo do bem”. Algumas dessas pessoas conseguem ir ainda mais longe e implementar a “meritocracia namastê”: o gato, por ser fofinho, merece amor; o mendigo, por não ser fofinho, que se vire.

Pessoalmente, tirando o fato relevante de que muitos dos reacionários da internet propagam um discurso francamente violento, não vejo muita diferença entre a teoria do crocodilismo pós-vacina e a cura do câncer por defumadores quânticos. Estruturalmente, os dois casos partem da negação do método científico.

Vejam, não tenho qualquer desejo de abraçar uma outra possibilidade de radicalismo, esta fundada no positivismo. A fé desmedida nos poderes de salvação da ciência também pode ser perigosa – e, de todo modo, é apenas mais um tipo de . Muito se resolve e é possível realizar boas leituras da realidade por meio da arte e da apreciação estética. Sequer nego as possibilidades lúdicas de um mapa astral, canceriano que sou. O problema reside no questionamento sistemático do método científico e a substituição da ciência pela fabulação ou por artifícios mágicos. Ao que parece, é mais fácil acreditar num comitê globalista secreto que criou a COVID-19 que debater os desafios e limites do nosso atual paradigma produtivo. Do mesmo modo, é mais agradável pensar nos poderes de predição de simpáticas cartas de baralho que lidar com as incertezas de uma realidade complexa.

Enfim, o Brasil parece ter mergulhado num debate delirante sobre mundos paralelos criados por celebridades duvidosas da internet e teorias conspiratórias diversas. Embora esse cenário já seja bastante preocupante, vamos além. Os desatinos se espalham mundo afora, à esquerda e à direita, seja para adivinhar grupos malignos com planos secretos ou para divulgar a cura por energias místicas. Vivemos uma assustadora era de regressão.


Imagem em destaque: Tarô e cristais, de Lucas Pezeta no Pexels.


Adquira e colabore para manutenção do Portal Sociologia da Gestão:

Manual de introdução à pesquisa acadêmica nos ensinos médio e superior. Contém informações relevantes e dicas práticas que ajudarão no desenvolvimento da pesquisa e do trabalho final de curso. O livro busca atender as demandas de estudantes do ensino médio que estão em contato com a pesquisa e estudantes universitários que precisam escrever artigos e trabalhos de conclusão de curso. O material foi escrito em linguagem simples e direta, com exemplos ilustrativos e comentários explicativos. Trata-se, portanto, de uma obra cujo maior objetivo é socorrer de forma prática o estudante que precisa desenvolver sua pesquisa e encontra dificuldade com os percursos acadêmicos.