A administração da catástrofe

Embora seja mera atualização de um clichê, podemos dizer, com tranquilidade, que 2020 foi o ano em que vivemos em perigo. Para facilitar a compreensão sobre a grandeza da ameaça enfrentada, podemos listar alguns dos eventos mais terríveis com os quais tivemos de lidar até o momento:

  • O fato mais grave, base para os demais, diz respeito ao acirramento da onda negacionista e anti-intelectual, mundo afora. A recusa sistemática ao conhecimento científico produziu fenômenos como o terraplanismo; movimento antivacina; discurso difamatório contra a educação formal e os ambientes universitários, sobretudo públicos; ataques aos estudos sobre aquecimento global; entre outros absurdos, todos alinhados à repulsa pela ciência e a racionalidade;
  • De forma mais chamativa, temos a pandemia de Covid-19. Após a experiência da “gripe espanhola”, entre 1918 e 1920, com estimativas que chegam a 50 milhões de mortes, era de se esperar que a humanidade tivesse aprendido algo – considerando o tamanho desse desastre médico-sanitário. Pois bem, com um milhão de mortes até 27 de setembro deste ano, podemos utilizar mais um clichê: quem não conhece a história está condenado a repeti-la. Os investimentos em saúde pública, respeito ao habitat de animais silvestres que podem ser vetores de vírus e bactérias, campanhas de prevenção, defesa do discurso científico… Tudo isso foi solenemente ignorado em várias partes do globo. O Brasil foi um dos destaques da inépcia no combate à propagação da Covid-19;
  • Temos acompanhado a sistemática destruição de vários ecossistemas do Brasil. A Amazônia e o Pantanal ardem em chamas. Pouco restou do Cerrado, cercado pelo deserto verde formado por café, cana e soja. A Mata Atlântica diminui a cada dia, vítima de loteamentos indecentes, com o fetiche novo-rico pela casa à beira-mar. Diante das fotos de queimadas, animais carbonizados e clareiras onde antes havia mata, resiste o discurso absurdo do negacionismo. Autoridades que insistem em afirmar que “nunca se preservou tanto” ou que “o agronegócio é ecológico”. Num mundo em que se acredita em uma Terra plana mesmo com todas as fotos da NASA, é compreensível tamanha dissociação da realidade.

Vejam que interessante: já passamos por tudo isso e ainda estamos em setembro!

Mas o que o termo administração, presente no título, tem a ver com tudo isso? Para explicar, precisamos detalhar duas premissas.

Primeiro, a de que os processos de administração e gestão alinham-se a valores, princípios, metas, objetivos, etc. Todos esses valores, por sua vez, têm conteúdo político. Para além das considerações ideológicas, por política podemos entender: (1) as decisões que irão orientar a gestão pública ou (2) orientações que irão estabelecer táticas e estratégias em âmbito corporativo. Além disso, a administração não é um fim em si mesmo: ela é um meio para alcançar determinados objetivos.

Passemos ao segundo ponto. Trata-se de uma percepção assaz infantil, acreditar que a administração será sempre motivada por “bons” princípios e orientada para “bons” resultados. Mesmo sem nos aprofundarmos na pantanosa discussão sobre ética, moral, bem, mal, etc., creio que é razoável dizer que a administração, muitas vezes, pode se voltar à execução eficiente de catástrofes. Vamos a isso.

A história está cheia de exemplos em que as ferramentas de gestão foram utilizadas para realização de empreendimentos sinistros. Isso pode ser visto em quase todas as guerras. O “nível ótimo” de exploração foi a meta de todo empreendimento colonial, do mesmo modo que muitos genocídios foram orientados para eficiente eliminação de etnias, povos e culturas. Ora, os campos de concentração e extermínio do nazismo formavam um verdadeiro complexo fordista voltado ao assassinato em massa. De modo diverso, em uma abordagem regressiva e de inspiração rural, o genocídio cambojano matou cerca de dois milhões de pessoas. Esses são exemplos extremos, em que a catástrofe se estabelece de forma visualmente avassaladora. Nem toda tragédia, porém, se estabelece tão claramente.

Assim, podemos perguntar se as queimadas que têm produzido cenas apocalíticas em 2020 são realmente fruto de má gestão. Igualmente, cabe questionar: o número exagerado de mortes por Covid-19 no Brasil (quase 142 mil em 27 de setembro de 2020) é resultado de incompetência? O avanço descontrolado da soja, nas fronteiras da Amazônia, é consequência de deficiências na fiscalização? A corrupção endêmica que assola a máquina administrativa do/no Rio de Janeiro é apenas demonstração da incapacidade dos órgãos de controle? Também é importante salientar que estamos em um país que despreza a escola pública, faz chacota dos cursos de humanidades e saúda de forma entusiástica teses tacanhas (da homofobia ao machismo mais empedernido). Todas essas tristes realizações correspondem aos objetivos táticos necessários à consecução do grande propósito estratégico: a corrosão das instituições democráticas. A cooperação entre a administração federal e setores da sociedade civil é fundamental nessa busca do sucesso às avessas. Enfim, cabe repetir a pergunta: estamos diante de incompetência sistêmica? Ou se trata, antes, de um caso de eficiência extrema?

Já que este texto é pontuado por clichês, podemos lembrar uma frase bastante interessante do antropólogo Darcy Ribeiro: a crise da educação no Brasil não é uma crise; é um projeto. Tal projeto tem sido executado com notável competência – do mesmo modo que outros tantos, citados neste texto: a destruição de nossos ecossistemas, popularização de terraplanismos e deliberada inépcia no trato da pandemia. Podemos provar, portanto, que o Brasil não sofre de incapacidade e, aliás, que se trata do contrário: a gestão é ótima. Os princípios e objetivos, por sua vez, são tétricos.

O Brasil de 2020 é um case de sucesso na administração da catástrofe.


Foto em destaque: Brigadista do Prev Fogo do Ibama checa área de floresta derrubada e queimada no município de Apuí (AM). Autoria: Bruno Kelly/Amazonia Real. Creative Commons: Atribuição 2.0 Genérica (CC BY 2.0).

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