Um docente na pandemia

Inicialmente, gostaria de agradecer a paciência de quem acompanha este espaço. Como devem ter notado, as publicações foram interrompidas no dia 9 de março e, dessa data em diante, foram criados apenas avisos para meus alunos e alunas. Além da sensação de abandono sentida por meus doze leitores, há um problema editorial relevante nesse sumiço. Jornais, revistas, podcasts, blogs, etc., todos esses canais para distribuição de conteúdos dependem de regularidade na produção. Ora, se uma ou duas semanas sem novas publicações já pode ser algo péssimo para audiência, imaginem, então, seis meses. Talvez soe como justificativa “fácil”, mas o fato é que o portal Sociologia da Gestão também foi vítima da pandemia de Covid-19, a grave moléstia causada pelo novo coronavírus.

Importante: não fui contaminado! Conforme verão a seguir, apenas soterrado pelo aumento exponencial de trabalho.

Mas de que maneira a pandemia afetou a constância das publicações? Explico. O Antonio, que sou eu!, é o criador deste cantinho da internet e trabalha como professor. Como devem ter lido no item Sobre o Portal, ele é docente em nível superior e ministra aulas em disciplinas de interface entre ciências humanas e administração. Até meados de março, a vida seguia tranquila: ônibus, trem, caminhada, sala de aula, alunos conversando, projetor, bronca, café, fila na cantina, chamada, fim da aula e caminho de volta. No entanto, quando ficou impossível ignorar a Covid, tudo mudou. Considerando que se trata de um vírus que “adora” espaços confinados e aglomerações, aulas presenciais tornaram-se inviáveis. A toque de caixa, começava a surgir uma novíssima realidade, em que os meios eletrônicos deixariam o papel de coadjuvantes para se converterem em protagonistas do ensino e aprendizado.

A pandemia atropelou o país. Com uma administração federal paralisada pelo negacionismo, os governos estaduais, prefeituras e organizações da sociedade civil tiveram de criar soluções. Campanhas informativas em defesa do isolamento social foram produzidas, outras tantas campanhas de desinformação apareceram. Não seria exagero dizer que o Brasil foi um dos campeões mundiais de incompetência no trato dessa tragédia de caráter médico-sanitário.

Deixei de ir à sala de aula em uma segunda-feira e na quarta subsequente já estava a postos na internet. Aí surgiu o desafio de tentar me orientar em meio a uma avalanche de  abordagens, aplicativos, ferramentas e plataformas: o bom e velho e-mail; Google Classroom; Microsoft Teams; Skype; WhatsApp; Zoom; e mais o que aparecesse. Alguns professores, os mais criativos ou incautos, tentaram caminhos menos congestionados – fui um dos integrantes desse grupo de lunáticos. Aproveitando a experiência de ouvinte e produtor, gravei aulas em formato de podcast, com vinheta e tudo. As turmas garantem que gostaram bastante, por ser um modelo que consome pouco dos planos de internet e permite a interação com o conteúdo em qualquer horário. Infelizmente, não seria plausível transformar os podcasts em padrão. Como os demais colegas, neste segundo semestre, migrei para o formato das aulas ao vivo. Nunca me senti tão feliz por ter uma webcam acoplada ao meu notebook.

Creio que jamais trabalhei tanto, com tanta intensidade. A disponibilidade para alunos e alunas, preocupados com seu futuro acadêmico, passou a ser muito maior. Em algumas semanas, cheguei a dormir em noites intercaladas, para dar conta do volume de mensagens, comunicados, e-mails e gravação de aulas. Importante citar outros problemas/desafios que não ficam tão evidentes para quem nos acompanha à distância: manter horários regulados, não enlouquecer na clausura, tomar sol em quantidade suficiente, lembrar que limão e laranja previnem escorbuto, etc. Mas, mesmo com tantos problemas, o reconhecimento do esforço por parte dos alunos e alunas é algo gratificante. Do mesmo modo que tem sido tranquilizadora a iniciativa de algumas (poucas) instituições de ensino que parecem salvaguardar professores e clientes, colocando a saúde antes do lucro.

Muitos foram os desafios e dificuldades até aqui. Mas vamos vencer o vírus, a ignorância negacionista, o imobilismo federal e as muitas provas por corrigir. Para todos nós, desejo uma ótima saúde até a chegada da vacina.


Foto em destaque por Julia M Cameron via Pexels.com.

2 comentários em “Um docente na pandemia

    1. Prezada Silene,

      Tudo bem com você, na medida do possível? De fato, o isolamento tem sido desafiador. Convivo com um colega que tem um quadro grave de asma, de modo que só coloco os pés na rua quando extremamente necessário. Mas, paciência, vamos de EaD! Finalmente estamos utilizando a internet para algo mais útil que conferir a tabela do Campeonato Brasileiro! =)

      Agradeço imensamente pela leitura e elogio. Um grande abraço e fique bem!

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