Como preparar seu TCC

Série Vamos estudar?, número 4 – Como preparar seu TCC

Com esta publicação, chegamos ao fim da primeira edição da série Vamos estudar?. Embora o foco deste espaço seja a administração contemporânea, esta série foi dedicada a uma parcela importante de nossos leitores: os estudantes do ensino superior. Assim, após explicarmos como estudar adequadamente, produzir um texto acadêmico e as melhores práticas de leitura, vamos atacar o principal desafio do último ano de graduação. Sim, estamos falando do temível Trabalho de Conclusão de Curso, o TCC.

Por minha experiência como discente, docente e pesquisador, quase todas as dificuldades na realização de um TCC têm origem em um projeto de pesquisa deficiente. Uma investigação científica mal formulada, sem recortes claros, é uma garantia de sérios problemas. Afinal, se não há clareza sobre o que fazer, como será possível sequer começar? Boa parte deste texto trata, portanto, da construção de um projeto de pesquisa útil, verdadeiramente capaz de direcionar esforços.

1. Qual a sua pergunta?

Você definiu seu TCC de forma genérica, com algo como vou estudar o nível de produtividade dos trabalhadores de bancos? Toda pesquisa que começa com uma proposta vaga, dessas em que o pretenso objetivo é aprender mais sobre alguma coisa, carece de clareza e objetividade.

Vamos utilizar o exemplo do parágrafo acima para mostrar o que é uma pergunta de pesquisa válida. Desse modo, vou estudar o nível de produtividade dos trabalhadores de bancos e minha proposta terá os seguintes recortes:

  • Quero estudar o nível de produtividade considerando:
    • Trabalhadores da área comercial, responsáveis pela concessão de empréstimos;
    • Número de horas trabalhadas;
    • Absenteísmo, com ênfase nas faltas motivadas por questões de saúde;
    • O cumprimento de metas determinadas pela chefia;
  • Vou comparar níveis de produtividade entre dois bancos, o X e o Y;
  • A medição de produtividade levará em conta o período entre 2015 e 2018, pela disponibilidade de estatísticas confiáveis e prazo para conclusão da pesquisa;
  • Tenho uma pergunta orientadora que é a seguinte: o uso de tecnologias da informação, como programas de computador (software), tem impacto relevante na produtividade de trabalhadores de bancos?
  • Meu levantamento preliminar mostrou que os trabalhadores do Banco X são mais produtivos que os do Banco Y e minha hipótese é a de que essa vantagem se deve ao uso dessas ferramentas tecnológicas. Inclusive, já consegui isolar uma variável importante: um programa de computador que seria o elemento central da vantagem do Banco X;
  • Além das questões intrínsecas à pesquisa, é importante considerar que tudo deve ser feito em um prazo máximo de 1 ano.

A distância entre o aluno que afirma genericamente o desejo de pesquisar algo e aquele que constrói recortes precisos é abissal. O primeiro não tem direção clara a seguir, o segundo tem um roteiro de trabalho claramente determinado. Uma pergunta precisa faz toda a diferença.

Mas isso não significaria uma excessiva especialização, um estudo de caso por demais restritivo? Acredite, a resposta é não. De uma pergunta aparentemente banal, podem surgir reflexões das mais relevantes – e o desejo de abraçar o mundo em uma investigação acadêmica é sempre ingênuo e irreal. Como recomendava Umberto Eco¹, o inspirador desta série, uma proposta adequadamente estruturada é essencial ao bom trabalho científico. Além disso, o papel do TCC, bem diferente do doutorado, é “apenas” o de promover o aprendizado de competências que garantam a autonomia do candidato em pesquisas futuras. A busca pela originalidade cabe a níveis mais avançados do trabalho acadêmico.

2. O projeto

Você pode escrever um bom projeto utilizando uma estrutura bastante simples. Aliás, esse é um dos propósitos principais desta série: mostrar que as soluções para os desafios acadêmicos podem ser descomplicadas.

Idealmente, o seu projeto deve ter entre 10 e 20 laudas, com fonte Times New Roman ou Liberation Serif, corpo 12 e espaçamento 1,5 entre linhas. Caso sua instituição de ensino utilize outro modelo, recomendo que o utilize – afinal, é importante treinar o formato padrão do TCC desde o projeto. Caso não se sinta seguro com a formatação proposta neste texto e sua instituição não tenha um manual para tratar disso, as regras da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) fornecem os parâmetros “oficiais” para edição de trabalhos acadêmicos (falaremos mais sobre isso no item 3).

Superada a forma, vejamos o conteúdo. Os componentes de seu projeto devem ser os seguintes:

2.1. Introdução:

Deve conter a descrição geral do que será a pesquisa. Qual foi sua inspiração/motivação? Qual a sua proposta, em linhas gerais? Importante tratar, também, do cenário de sua área de concentração, elencando os trabalhos já realizados, autores relevantes, discussões atuais, etc. Trata-se de uma etapa inicial da revisão bibliográfica, em que seu projeto deve mostrar qual o “estado da arte”. Você deve dar ao leitor as impressões gerais do que será visto nas próximas páginas e já destacar qual é a pergunta fundamental de seu projeto.

2.2. Objetivos:

Neste item você vai desdobrar a pergunta geral, orientadora, em perguntas menores, operativas. Voltemos ao exemplo do começo deste texto, sobre o nível de produtividade dos trabalhadores de bancos. Sendo essa a questão geral, você deve elencar as perguntas específicas que pretende responder: número de horas trabalhadas; nível de absenteísmo; faltas por questões de saúde; cumprimento de metas; análise comparativa entre os bancos selecionados (X e Y); etc. Também é importante relacionar os objetivos amostrais/operacionais da pesquisa: número de entrevistas a realizar; tempo e profundidade da pesquisa de campo; dimensão da bibliografia a cobrir; entre outros itens.

2.3. Justificativa:

Qual a importância de sua pesquisa? Por que as pessoas deveriam se interessar? A ideia é produzir ciência básica, que irá orientar o esforço de outros estudiosos? A pesquisa tem aplicação mais pragmática, oferecendo um novo produto, processo ou prática profissional? Este tópico serve para explicar a importância de seus prováveis achados, os motivos pelos quais tempo e recursos serão destinados à resposta de suas indagações. Pode ser útil, também, para esclarecer como sua bolsa de estudos/pesquisa será empregada.

2.4. Quadro teórico-metodológico:

Esta é a “caixa de ferramentas” da pesquisa. Todo o equipamento analítico necessário ao estudo deve aparecer neste item, sendo que ele deve ser dividido em duas partes:

  • Conceitos fundamentais: esta é a segunda etapa de sua revisão bibliográfica – a primeira está na introdução. Os textos relevantes sobre seu objeto de pesquisa devem estar listados aqui, com resumos que mostrem qual a utilidade dos mesmos para sua investigação. Dessa revisão devem sair os conceitos com os quais irá trabalhar. Ainda pensando no exemplo do banco, como realizar uma análise comparativa da produtividade desses trabalhadores se não houver, antes, uma definição do próprio conceito de produtividade? Seu leitor deve saber exatamente o que você propõe quando cita cada palavra-chave de sua análise – o que inclui, claro, seus conceitos fundamentais;
  • Métodos e técnicas para pesquisa: a última parte da revisão bibliográfica serve para que você constitua os instrumentos de pesquisa propriamente ditos. Qual a metodologia orientadora de suas reflexões e as técnicas utilizadas em campo? Importante destacar que a “metodologia” trata da orientação mais abstrata e reflexiva da pesquisa. Você pretende utilizar elementos da sociologia compreensiva? Do materialismo histórico-dialético? Sua abordagem remete ao estrutural-funcionalismo? Esclarecida essa orientação, que irá definir qual o olhar dedicado ao seu objeto, podemos passar às técnicas. Devemos dizer se nossa aproximação é quantitativa ou qualitativa; se utilizaremos questionários abertos, semiestruturados ou estruturados; o tamanho da amostra a ser abordada; a realização (ou não) de uma etnografia; etc.

2.5. Cronograma:

Por algum motivo difícil de determinar, alunos que precisam entregar um TCC desenvolvem uma estranha repulsa a prazos e datas. O cronograma serve para diminuir os sintomas desse inexplicável bloqueio existencial. Brincadeiras à parte, após listar, de forma realista, seus propósitos, ainda é preciso distribuí-los em etapas, sendo que estas devem corresponder aos prazos disponíveis. Assim, depois de estabelecer o que fazer, é hora de determinar quando e por quanto tempo fazer. Nunca, jamais, em hipótese alguma descumpra o cronograma de um TCC. Não se trata mais do trabalhinho de graduação que pode ser ignorado pelo professor camarada: agora é o seu diploma que está em jogo.

3. O orientador e o revisor

O orientador, como o nome sugere, é a pessoa que deve acompanhar a pesquisa e, sempre que possível, oferecer conselhos e ideias. Também cabe a ele seguir a evolução dos trabalhos, antecipar dificuldades e tentar, na medida do possível, transferir um pouco de sua experiência acadêmica.

Orientandos, em geral, padecem de uma teimosia à toda prova. Possuem a certeza arrogante de que o acompanhamento da pesquisa é muito exigente, que as cobranças são descabidas e que sempre é possível conseguir mais prazo… O orientando deveria saber, no entanto, que está no início de uma caminhada que foi iniciada pelo orientador há muitos anos. Quase sempre, esse conselheiro sabe do que está falando quando sugere uma mudança de rumos ou solta uma bronca por conta de um texto desleixado. Em minha opinião, o orientando costuma ter razão apenas quando reclama de um professor que se recusa a realizar sua obrigação de orientador. Nesse caso, procure um substituto para essa função – antes que o prazo acabe.

Por fim, temos o revisor, uma figura de extrema utilidade para um TCC – ou dissertação ou tese. Idealmente, você deveria dominar todas as regras estipuladas pela famigerada ABNT. Esta é a instituição responsável por emitir normas e regulamentos para quase tudo em nosso país, incluindo a redação de um trabalho acadêmico. Muitas faculdades possuem um manual com uma lista dessas normas, para você estudar e aplicar da melhor forma possível. Mas, além dessas regras todas, há mais uma, absolutamente fundamental: o bom uso da língua portuguesa. Não adianta muito seguir normas de espaçamento e recuo se o TCC estiver mal escrito. Este, portanto, é outro ponto em que deve haver uma revisão cuidadosa. Minha recomendação, muitas vezes posta de lado por questões financeiras, é a seguinte: contrate um revisor. Uma pessoa com experiência nessa área e que possa acertar todas as deficiências de seu texto, da ABNT à língua portuguesa.

Como última recomendação, entenda que eu disse um revisor. Jamais contrate uma pessoa para fazer o trabalho de pesquisa em seu nome. Tal atitude destruirá sua credibilidade nos meios acadêmicos – além, claro, de configurar um crime.


Nota:

[1] ECO, Umberto. Como se faz uma tese. São Paulo, Editora Perspectiva, 1989 [1977].


Foto em destaque no topo do texto: usuária BonnieHenderson em Morguefile.com.

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