Como organizar seus estudos

Série Vamos estudar?, número 3 – Como organizar seus estudos

Qualquer pessoa, a partir de suas disposições para o estudo, pode ter uma carreira acadêmica promissora e produzir reflexões relevantes. No entanto, a produção intelectual de um indivíduo só terá importância caso ele seja capaz de apresentar resultados: boas notas em avaliações, trabalhos consistentes, artigos interessantes, citações, etc. Quem não produz conhecimento, não divulga seus saberes e não é capaz de apresentar resultados, por maior que seja sua capacidade intelectual, na prática se converte em um fracasso. E a falta de disciplina para labuta é uma causa bastante comum da ausência de resultados para quem lida com o conhecimento.

Pode parecer um discurso localizado entre o moralismo e a autoajuda, mas trata-se, antes, de um fato: a atividade intelectual em nível superior requer algum grau de dedicação e sacrifício. Como visto nos artigos anteriores desta série, é preciso desenvolver competência para ler adequadamente e escrever com clareza. Atividades estas que requerem uma grande quantidade de treino – que, infelizmente, nem sempre pode ser feito com os amigos em um churrasco ou na cervejada da faculdade. Portanto, organizar os estudos significa, de partida, comprometimento: você precisa ter o desejo de aprender e criar. E tal vontade só poderá se tornar efetiva com o uso da disciplina e organização, práticas que abordaremos ao longo deste texto.

Para melhor organizar o estudo, você precisa dar conta de quatro questões: objetivos  ou por que estudar?; materiais ou com o que estudar?; organização ou como estudar?; e disciplina ou por quanto tempo estudar?. Vejamos, em detalhes, cada um desses itens.

1. Objetivos: por que estudar?

A menos que a leitura seja um grande prazer para você, o estudo não prospera sem objetivos claros. Acho uma lástima que, em tempos de internet, as pessoas tenham deixado de lado os livros e a alegria de uma sexta-feira à noite com café, luminária e leitura. Infelizmente, o estudo não é mais associado ao lazer e muitos estudantes encaram tal esforço como um desagradável obstáculo na trilha para um diploma. Repetindo, uma lástima.

De todo modo, com a esperança de que este texto ajude a transformar uma ou duas mentes, sejamos pragmáticos. Você deve saber, com clareza, por que deseja estudar: seus objetivos, metas, o que ganha com isso e os motivos para trocar o entretenimento banal por uma atividade intelectual disciplinada. Uma vez determinado seu propósito, é fundamental se convencer de que seus intentos precisam ser alcançados. Isto inclui uma conversa franca consigo mesmo – e seu analista, caso tenha um. A tarefa é realizável? Você quer mesmo dedicar várias horas semanais aos livros, cadernos, computadores, canetas, etc? Vale mais um objetivo modesto e realista que a decepção de um fracasso e/ou desistência.

Definiu o que deseja? Um concurso? Concluir o Trabalho de Conclusão de Curso (TCC)? Estudar para uma prova? Criar uma disciplina de longo prazo para sua formação intelectual? Agora que você já sabe porque vai dedicar seu tempo a essa atividade, vamos ver o que é preciso para estudar de forma produtiva.

2. Materiais: com o que estudar?

O insumo básico para o estudo é o silêncio – sem ele, dificilmente teremos concentração. Quem já tentou estudar na mesa da sala, com a família assistindo a um jogo da seleção brasileira de futebol, sabe, de forma definitiva, que o barulho e a agitação matam qualquer possibilidade de produção intelectual. Logo, sabendo que precisará de silêncio e concentração, será necessário encontrar um espaço tranquilo: pode ser uma biblioteca, escritório, quarto, sala de leitura, espaço de estudos, etc.

Com o silêncio garantido, você vai precisar de uma mesa ou escrivaninha para dispor seus materiais: canetas, lápis, cadernos, livros, computador, etc. Além da mesa, também é importante uma cadeira confortável e uma combinação de luzes potentes no teto e na luminária de mesa. Um arranjo ergonômico vai contribuir para sua disposição em realizar o trabalho intelectual por períodos mais longos.

Vejamos o meu exemplo. Antes de iniciar minhas tarefas, coloco sobre a mesa: o livro que irei consultar; uma lapiseira (para rabiscar o livro); borracha; um bloco de anotações; canetas (uma azul e outra vermelha); e o meu notebook. Este último, caso não esteja em uso, fica fechado, para não gerar dispersão. Separados os materiais, confiro a postura, me ajeito na cadeira, faço uma última organização dos itens sobre a mesa e começo o trabalho. Detalhe importantíssimo, que quase esqueci: uma caneca cheia de café deve estar ao alcance das mãos.

3. Organização: como estudar?

Para uma organização mais efetiva, procuro utilizar técnicas importadas da gestão e/ou engenharia de produção. Acredito que algumas práticas identificadas com o Sistema Toyota ou o modelo de produção enxuta (lean manufacturing) são particularmente úteis. Primeiro, realizo uma intervenção no espaço seguindo o seguinte roteiro:

  • Separar apenas os materiais necessários e colocá-los em uma disposição racional – tudo deve ser de fácil identificação e ficar ao alcance das mãos;
  • Aquilo que não será utilizado deve ser guardado e/ou descartado;
  • O ambiente deve estar limpo e com o mínimo possível de poluição visual, para que as distrações não fiquem ao alcance da visão periférica;
  • Esse roteiro deve se tornar um padrão, com essa conferência repetida a cada ciclo de trabalho intelectual.

Creio que os leitores mais atentos já perceberam que o roteiro acima foi inspirado no 5S: Seiri (classificação), Seiton (ordem), Seiso (limpeza), Seiketsu (padronização) e Shitsuke (disciplina). Da mesma linhagem, outra técnica que considero particularmente útil é o Kanban. Nesse sistema, metas, problemas e necessidades da produção ficam sempre visíveis, pela utilização de cartões coloridos e quadros de avisos. No meu espaço de estudo, costumo utilizar notas adesivas (o célebre Post-it) para orientar minhas prioridades. O que deve ser feito aparece em notas vermelhas. Para os itens em realização, utilizo o laranja. As tarefas já concluídas ganham uma nota azul. As tarefas extraordinárias, que jamais podem ser negligenciadas ou devem ser tratadas com urgência, recebem uma nota amarela com muitos asteriscos, setas e itens de destaque, para chamar a atenção sobre sua importância.

Além dos cuidados de organização e a utilização de avisos coloridos, o velho e bom quadro de cortiça pode ser muito útil para pendurar um calendário, destacar datas e anotar lembretes. Só não recomendo que fique no campo visual imediato, pois pode se converter em elemento de distração permanente.

4. Disciplina: por quanto tempo estudar?

Estabelecida uma meta, trate de estudar até que esta seja cumprida. Assim, se está em preparação para uma prova, estude até cobrir todo o conteúdo e se sentir seguro. O objetivo é concluir a revisão bibliográfica do TCC? Então só pare quando todas as indicações de leitura tiverem passado por sua avaliação. A ideia é se dedicar por toda a vida a uma área do conhecimento que lhe traz satisfação pessoal e retorno financeiro? Então estude tais conteúdos, também, por toda sua vida. No meu caso, acredito que seguirei por muito tempo nas áreas de gestão, administração, tecnologia e cultura digital. Trata-se, portanto, de minha meta intelectual de longo prazo.

De forma mais pragmática, sabendo que há metas a cumprir, é preciso determinar uma rotina de estudos com tempos definidos. Utilizemos um exemplo em que você pode encaixar janelas para o trabalho intelectual às segundas, terças e quartas-feiras. Então você deve criar uma disciplina férrea para realizar tal atividade nesses três dias, todas as semanas, com sol ou chuva, em datas de feriados ou festas, etc. Estabelecidos os dias, também é importante definir metas em horas: considerando 6 horas de janela de disponibilidade nos dias citados (segundas, terças e quartas), você pode dedicar ao menos 4 horas para o estudo em cada um – totalizando, assim, um mínimo de 12 horas semanais.

Quanto à atividade de estudo em si, recomendo estabelecer ciclos, para evitar o desgaste excessivo e renovar a concentração. Uma sugestão inicial para quem deseja criar aplicação e constância: ciclos de 1 hora de estudo por 15 minutos de descanso. Você se acomoda, abre o livro, prepara o bloco de anotações ou notebook, ajusta a iluminação e dá a largada. Após uma hora de imersão absoluta na atividade intelectual, 15 minutos para água, café, banheiro, respirar ar fresco e exercitar a circulação das pernas. Feito isso, mais 1 hora. Cuidado para que os 15 minutos não se transformem em 150! Esse intervalo serve para renovar sua vontade de estudar, não para enviá-lo para frente da televisão.


Cabe ressaltar que este canal e o autor deste texto não são inimigos da alegria. De fato, a exigente disciplina citada acima é fundamental para o trabalho acadêmico em longo prazo. Mas também é importante separar algum tempo para festejar, ver os amigos e colocar as ideias à prova em um comitê editorial dos mais efetivos: a mesa do bar.


Foto em destaque por stanmiller em Morguefile.com.

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4 comentários em “Como organizar seus estudos

    1. Prezada Jaqueline,

      Muito obrigado pelo elogio! Continue frequentando nosso espaço e sinta-se à vontade para comentar. A resposta de leitores e leitoras é a maior recompensa possível ao nosso esforço!

      Grande abraço da Sociologia da Gestão.

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