Como escrever um texto acadêmico

Série Vamos estudar?, número 2 – Como escrever um texto acadêmico

Morre de medo de escrever? Treme de pavor quando o professor diz “prova dissertativa”? Tem pesadelos só de imaginar o TCC? Então vamos resolver isso já! A postagem abaixo enumera algumas orientações essenciais à escrita de textos acadêmicos. Esperamos que seja útil.


Para iniciar a produção de um texto acadêmico, você precisa (1) saber o que quer dizer e (2) ter a habilidade de se comunicar, por escrito, com clareza. Você pretende escrever uma redação de uma ou duas laudas, para abordar rapidamente alguma tema? Ou apenas três parágrafos curtos são suficientes para dar conta de uma prova dissertativa? Talvez seu propósito seja mais ousado: um TCC (Trabalho de Conclusão de Curso) ou uma dissertação de mestrado. Para qualquer um desses casos, antes de começar a escrever, vale perguntar: qual é seu objetivo com o texto a ser produzido? Com uma resposta claramente formulada, você pode iniciar um rascunho, anotando qual a ideia a desenvolver e quais argumentos a sustentam.

Na exposição a seguir, vamos abordar as possibilidades da escrita em três níveis: recomendações iniciais; estrutura básica para uma redação; e a adaptação dessa estrutura para textos mais longos. E repetiremos, exaustivamente, a cláusula pétrea da boa redação: para escrever bem é preciso ler muito.

1. Recomendações iniciais

Formatação com padrão acadêmico: a menos que esteja produzindo uma resposta para avaliação presencial, o uso de letra cursiva pertence ao ensino fundamental ou, no máximo, médio. O trabalho acadêmico deve ser sempre digitado e impresso, salvo orientação em contrário, e deve obedecer a algum critério de formatação – que pode variar de acordo com o tipo de trabalho ou instituição de ensino. Para evitar dúvidas, você nunca estará errado se utilizar: (1) as normas da ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas) ou (2) instruções de formatação que tenham sido claramente definidas pelo professor/orientador.

Na falta de instruções claras, para um conteúdo minimamente legível você pode usar as quatro dicas abaixo:

  • Espaçamento entre linhas: 1,5;
  • Fonte Arial ou Times New Roman ou Liberation Serif, corpo 12;
  • Jamais utilize caixa alta (maiúsculas) em todo o texto;
  • Jamais utilize a fonte Comic Sans.

Informações fundamentadas: citações genéricas e/ou sem vínculo efetivo com pesquisas sólidas devem ser evitadas, pois comprometem a credibilidade de sua análise. Exemplos:

  • Trinta por cento das pessoas do meu bairro garantem que já viram um alienígena! Alguém entrevistou essas pessoas? Esse número tem fundamento estatístico?
  • O governo francês já provou que vitamina C faz mal à saúde. Provou em qual estudo? Publicado onde? Quando o governo francês se pronunciou a esse respeito?
  • Eu acho que sem pena de morte é impossível resolver o problema da violência. Quais autores e/ou investigações sustentam essa afirmação? Estudos? Estatísticas? Exemplos históricos? Em temas polêmicos, o cuidado deve ser redobrado.

Citação das fontes: para superar o problema da falta de fundamentação, toda informação utilizada em seu texto deve ter uma fonte confiável e claramente indicada. Fontes confiáveis são aquelas que possuem lastro acadêmico e científico; foram avaliadas por especialistas da área em debate ou submetidas a um conselho editorial; tiveram sua publicação endossada por algum periódico de razoável reputação entre instituições de ensino e pesquisa; etc. Além da credibilidade das fontes, é fundamental que estas sejam sempre citadas adequadamente. Reprodução do texto e das ideias de terceiros sem o devido crédito é algo que classificamos como plágio.

Atenção ao vocabulário: o leitor terá maior disposição para absorver sua argumentação caso seu texto seja agradável aos olhos. Portanto, erros ortográficos não ajudam muito. Confira sempre a grafia dos termos com os quais tem maior dificuldade – não é vergonha consultar o dicionário. Também é importante estabelecer um vocabulário que seja, a um só tempo, seguro e variado. Seguro por conter termos que você compreende e escreve corretamente e variado por não repetir a mesma palavra dez vezes a cada parágrafo. Quanto a este último item, um dicionário de sinônimos pode ser muito útil.

Quem não se dispõe a ler, nunca vai escrever bem. O bom uso das palavras requer familiaridade. A leitura amplia o vocabulário, melhora a ortografia, permite contato com variados estilos de escrita, dá acesso ao conhecimento, etc. Aliás, cabe perguntar: por que não ler?

2. Estrutura básica para uma redação

Quando cursei o primeiro ano do ensino médio, no longínquo ano de 1995, aprendi um formato de redação muito adequado para avaliações, exames, trabalhos (inclusive aqueles de cursos do ensino superior), pequenas dissertações, etc. Trata-se de uma abordagem voltada às análises menos aprofundadas, presentes em textos não muito longos. Confesso que estou especulando, mas acredito que essa estrutura básica de redação funcionaria bem em composições de até 5 laudas. Mas não se preocupe: esse modelo pode ser adaptado para análises de maior fôlego e vamos tratar disso no último item desta postagem.

Vamos a um exemplo prático dessa estrutura em uma redação. Pensemos em um texto com cinco parágrafos, construído do seguinte modo:

  • Parágrafo 1: apresentação de uma ideia/tese/proposição e argumentos iniciais;
  • Parágrafo 2: aprofundamento de um argumento favorável à minha proposição;
  • Parágrafo 3: aprofundamento de um segundo argumento que sustente minha proposição;
  • Parágrafo 4: citação de um argumento contrário. Trata-se de mostrar que estou abordando todas as tendências de um determinado debate, inclusive aquelas que são contrárias ao meu ponto de vista. Isso demonstra a seriedade de minha análise e, também, o fato de que minha proposição inicial é capaz de sobreviver à crítica;
  • Parágrafo 5: conclusão, com a recapitulação dos principais pontos do conteúdo apresentado.

Veja, abaixo, um exemplo formulado a partir da pergunta “você acredita que Frederick Wislow Taylor deixou um legado importante para a Administração?”

[Título:] Taylor, o grande pioneiro

[Parágrafo 1: introdução do tema de discussão, apresentação de minha tese e rápida exposição dos argumentos que vou sustentar na sequência:]

Impossível citar o engenheiro e consultor estadunidense Frederick Wislow Taylor (1856- 1915) sem correr o risco de iniciar uma grande polêmica. Para uns, o maior gênio da história da Administração. Para outros, apenas um explorador inescrupuloso da força de trabalho. Devo dizer, de imediato, que me incluo no primeiro grupo. Isso se deve ao fato de considerá-lo um grande pioneiro e, também, o responsável por propor práticas que efetivamente aumentaram a eficiência dos processos produtivos. Podemos criticá-lo por seu trato pouco respeitoso em relação aos trabalhadores, mas não devemos anular suas grandes contribuições à ciência da Administração.

[Parágrafo 2: argumento favorável à biografia de Taylor. Ele percebeu a necessidade de uma abordagem científica dos processos produtivos, o ponto de partida para criação da Administração como campo de produção acadêmica:]

Em um cenário de transição entre a produção artesanal e a produção industrial em larga escala, trata-se de tarefa fundamental entender a origem e as características da mão de obra. Na turbulenta passagem do século XIX para o XX, trabalhadores migraram do campo para cidade e o tempo não controlado, da produção autônoma e não padronizada, deixou progressivamente de existir. O cenário produtivo da grande fábrica demandava organização e disciplina, elementos que só poderiam ser obtidos após cuidadosa observação e análise. Taylor teve o mérito fundamental de notar a necessidade de uma abordagem científica dos processos produtivos. Isso pode parecer óbvio hoje, mas essa não era a realidade na década de 1910.

[Parágrafo 3: um segundo argumento favorável à biografia de Taylor. Neste caso, vou enumerar suas efetivas contribuições para o ganho de eficiência nos processos produtivos:]

Muitas foram as contribuições de Taylor à causa da eficiência. Vejamos uma pequena lista: a padronização de procedimentos para realização de tarefas; o treinamento dos trabalhadores; a fiscalização do desempenho individual; o estabelecimento de metas de produtividade; entre outras. A combinação desses procedimentos resultou em ganhos reais de eficiência. Além disso, é pouco plausível negar a necessidade de treinamento de uma mão de obra que acabara de migrar do campo ou da produção artesanal para o ritmo frenético das fábricas.

[Parágrafo 4: crítica às proposições de Taylor carentes de embasamento científico e/ou que provaram ser prejudiciais ao bem-estar dos trabalhadores. Importante notar que o legado do teórico, em minha análise, é capaz de sobreviver à crítica:]

Contudo, podemos notar ideias e práticas reprováveis nos procedimentos propostos por Taylor. Nesse sentido, temos a rígida separação entre trabalho mental e físico e a exagerada divisão de tarefas, que confinava os indivíduos a uma vida apertando parafusos. Algo cruel e que, de fato, demonstrava um maior interesse nos ganhos corporativos que na qualidade de vida dos trabalhadores. Além disso, muitos de seus experimentos “científicos” continham elementos determinados de forma aleatória e arredondamentos. Mas, mesmo com tais problemas, creio ser difícil desconsiderar seu pioneirismo e contribuição efetiva aos processos produtivos.

[Parágrafo 5: conclusão. Procurei repassar toda a análise, enfatizando o fato de Taylor ter sido um pioneiro na causa da eficiência produtiva. Pioneiro que cometeu falhas, sobretudo no tratamento dispensado aos trabalhadores, mas que, mesmo assim, trouxe contribuições notáveis à causa da eficiência produtiva. A maior dessas contribuições, aliás, foi enfatizar que o futuro da Administração estava em sua constituição como ciência:]

Concluindo, devemos analisar o legado de Taylor no contexto em que foi produzido. Ele foi o primeiro grande teórico da Administração como ciência. Teve de lidar, por um lado, com um mundo que se industrializava rapidamente e não dispunha de mão de obra preparada para isso. Por outro, não havia uma reflexão acadêmica consolidada, na qual pudesse se apoiar. Levando tais questões em consideração, embora tenha pecado por não pensar o suficiente no bem-estar dos trabalhadores ou por deixar a desejar em consistência científica, estamos diante do grande pioneiro desse campo do saber. Além de suas contribuições efetivas à eficiência na produção, Taylor será sempre lembrado por ter estabelecido uma das grandes metas da Administração: constituir-se como ciência.

3. Como utilizar essa estrutura básica em reflexões mais longas?

Tomemos como exemplo um TCC. O modelo proposto acima pode ser adaptado de duas formas, que podem ser utilizadas em conjunto.

Primeiro, o esquema de cinco parágrafos pode ser ampliado e convertido em cinco capítulos de uma dissertação. Uma introdução, com apresentação do tema de pesquisa e a tese proposta; um capítulo que trabalha de forma detalhada um dos argumentos a favor da minha tese; mais um capítulo para discussão de outro argumento favorável; um capítulo com uma revisão crítica, para avaliar se a tese sobrevive a um escrutínio sério; e, por fim, as conclusões alcançadas. Em linhas gerais, trata-se do mesmo modelo básico, em versão expandida. Importante lembrar, todavia, que devemos acrescentar, a esses cinco capítulos, um sobre a metodologia utilizada e outro com a revisão bibliográfica.

Segundo, a lógica da estrutura básica pode ser replicada, continuamente, ao longo de um texto mais amplo. Cada tópico desenvolvido em uma análise pode passar por essa sequência: apresentação, argumentos favoráveis, possíveis críticas e conclusão. Portanto, o modelo básico de redação, com os devidos ajustes, pode ser utilizado para construir uma dissertação e, em seu interior, a análise de todas as ideias propostas.

O desdobramento do modelo básico só é possível porque ele utiliza uma abordagem simples e elegante do exercício analítico: apresentação de uma ideia; seu desenvolvimento; crítica/avaliação; e conclusões. Notando bem, tem até um pouco de dialética aí, não é mesmo?


Importante: conforme assinalamos em possa postagem anterior – Como ler um texto acadêmico -, esta série de artigos não tem a pretensão de determinar a palavra final no desenvolvimento do trabalho acadêmico. Este, portanto, não é um manual definitivo sobre a melhor forma de se escrever um texto. Nosso roteiro é apenas uma sugestão para organização de sua análise. Caso não goste ou tenha uma alternativa que pareça mais adequada aos seus propósitos, fique à vontade para colocar nossos conselhos de lado. Não somos ciumentos!


Foto em destaque por jppi em Morguefile.com.

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