Previsões para 2019?

Como já dito em outros textos deste canal, dos ativos relevantes para um administrador (ou gestor ou algum nome da moda), nada supera a previsibilidade. Antes de realizar o planejamento estratégico da empresa, estabelecer seus objetivos, alocar recursos, decidir contratar ou demitir, é de fundamental importância avaliar o ambiente de negócios. Ou, como dizem os manuais de administração, realizar uma auditoria externa – concorrência, clima político, cenário internacional, etc. Assim, seja o governo de esquerda ou direita, progressista ou conservador, uma indicação clara das direções a seguir é de suma importância para melhor planejar.

Nesse sentido, a nova administração federal não começou muito bem. A gestão Jair Bolsonaro tem emitido sinais contraditórios, que oscilam entre tentativas de um novo fazer político e a subserviência ao tradicional jogo de Brasília. A retórica inflamada da campanha eleitoral ainda não foi posta de lado, o que também gera ruídos desnecessários para um país que deseja superar um período de aguda recessão. O tumulto causado por falas desastradas de alguns ministros não contribui para um debate produtivo da agenda econômica. Também não é possível ignorar as tensões no próprio núcleo duro da nova gestão: a recente viagem à China gerou desconforto nas fileiras do PSL, entre os eleitores de Bolsonaro e uma aparente ruptura com a liderança ideológica de Olavo de Carvalho.

A tentativa de emular o modelo de comunicação de Donald Trump, presidente dos EUA, traz, consigo, vantagens e desvantagens – as mesmas que temos observado durante o mandato do presidente republicano. Por um lado, o Twitter e demais redes sociais garantem agilidade e proximidade com apoiadores/eleitores. Por outro, essas ferramentas trazem consigo a superficialidade típica da comunicação eletrônica contemporânea: poucas palavras para assuntos demasiado complexos. Tal problema se agrava pela retórica inflamada e as dificuldades em ampliar a base de apoio popular ao governo para além de seu eleitorado.

Poderia ser essa uma estratégia cuidadosamente deliberada de comunicação? Talvez. Pautas indigestas deverão ser discutidas em breve: a reforma da previdência; o aprofundamento da reforma trabalhista; a pauta de privatizações; a eleição das mesas diretoras da Câmara dos Deputados e do Senado Federal; etc. Entre tantas questões e com uma retórica ainda inflamada, talvez estejamos diante de uma tentativa de preservar áreas sensíveis do novo governo enquanto discussões mais exuberantes chamam a atenção do público – como as cores para meninos e meninas. O ministro da Economia, Paulo Guedes, agradece.

[Aliás, quanto às eleições para as mesas diretoras do parlamento, cabe uma observação. Pela recente aproximação com o deputado Rodrigo Maia (DEM-RJ), o presidente e seus articuladores demonstram estar tomando contato com a dura realidade da política bem rápido.]

Tal abordagem, no entanto, não contribui para o trabalho do administrador que precisa planejar, avaliar as possibilidades de futuro e determinar metas. As contradições, idas e vindas e discurso agressivo precisam ser postos de lado, afinal, a campanha já acabou. E precisa ficar evidente, ao menos após as eleições na Câmara e no Senado, para onde o governo pretende ir. Quais políticas serão priorizadas, de que modo, em quais pontos Bolsonaro está disposto a ceder e em quais não abrirá mão de seu programa. As recentes trombadas, com ministros se desautorizando ou contradizendo o presidente, não mostram um caminho claro a seguir.

Por fim, não se pode negar que o chamado “mercado” vive um momento de euforia. A bolsa tem batido recordes, as declarações permanecem otimistas e o dono da Havan continua a oferecer entrevistas um tanto divertidas – ou ridículas, a depender do gosto do freguês. Mas nem só de intenções vivem os agentes econômicos, por mais que estas sejam capazes de criar miragens duradouras. Para grandes empresas ou para o administrador do cotidiano em seu mercadinho, já é hora do governo federal acertar a comunicação e perseguir prioridades.


Foto: Presidente Jair Bolsonaro se reúne com o Conselho de Ministros, no Palácio do Planalto, 03/01/2019. Marcos Corrêa/PR.

Anúncios

2 comentários em “Previsões para 2019?

Os comentários estão fechados.