Empreendedorismo à brasileira

Ao longo das últimas duas décadas, temos observado uma crescente valorização do empreendedorismo. O Sebrae tem realizado uma série de atividades nesse sentido, há discursos do governo federal, manifestações do empresariado e pautas variadas na imprensa. Difícil encontrar um jornal ou revista especializada que não tenha uma seção dedicada ao tema. Embora a crise iniciada em 2008 e agravada em 2013 tenha diminuído o ímpeto do crédito público, ainda há linhas de financiamento para quem deseja lançar um novo negócio. E ferramentas como o Microempreendedor Individual (MEI) colaboram com quem está começando, na medida em que reduzem procedimentos burocráticos e a incidência de impostos.

No entanto, vale olhar com mais cuidado para essa onda empreendedora e a forma pela qual se desenvolve. Um grande exemplo, sempre citado, é o do trio de empresários Jorge Paulo Lemann, Marcel Herrmann Telles e Carlos Alberto Sicupira. Os três estiveram diretamente envolvidos na formação da AmBev – que se tornou InBev, depois AB Inbev e ainda comprou, mais recentemente, a gigante SABMiller. A sucessão de êxitos corporativos dos executivos é narrada no livro Sonho Grande, de Cristiane Correa, lançado em 2013. Citados cotidianamente nos cadernos de notícias econômicas e convidados para variados eventos, não seria exagero dizer que se tornaram exemplos para quem deseja empreender no Brasil.

O mantra das organizações em que atuam – que, além da gigante das cervejas, inclui o Burger King e a Kraft Heinz Company – é a eficiência. Abomina-se o desperdício, as jornadas de trabalho são longas, os salários relativamente baixos e os bônus por cumprimento de metas grandiosos. Ninguém quer ser o primeiro a sair e a agressividade na condução dos negócios é estimulada. A compressão de custos é relembrada a todo instante, bem como o ganho de escala nas operações. Da junção desses fatores, obviamente, temos resultados financeiros positivos e a criação de condições para movimentos de consolidação de mercado, com a compra da concorrência.

Os frutos dessa abordagem são evidentes. Ninguém coloca de pé a maior cervejaria do mundo comandando um negócio às cegas. Como o trio gosta de dizer, seus profissionais devem ter “brilho no olho e faca no dente”. Isso significa ímpeto, sacrifício da vida pessoal, horas de trabalho infindáveis e, realizado o objetivo, grandes recompensas. Mas a pergunta que eu gostaria de fazer é: isso é empreender?

Em certo sentido, sim, claro. Afinal, trata-se de fazer crescer um negócio, torná-lo eficiente e lucrativo, buscar controle de mercado. Por outro lado, por mais romântico que isso possa soar, ainda acredito que empreender tem uma conexão muito mais relevante com a ideia de inovar e desbravar. Criar novos produtos, processos, transformações revolucionárias. Creio que é nesse ponto que o discurso do empreendedorismo encontra maior dificuldade em nosso país. Com investimentos cronicamente rebaixados – sejam eles públicos ou privados – o dinheiro para pesquisa e desenvolvimento é sempre curto. Como reter talentos capazes de novas ideias com bolsas de mestrado e doutorado, pagas pelo CNPq, no valor de R$ 1500 e 2200, respectivamente? Como superar o mutismo do contato entre universidades e mercado? E, ainda mais importante, como avançar em uma mentalidade que, por ora, parece valorizar apenas a compressão de custo enquanto menospreza a inovação?

Concluindo, o exemplo desses empresários merece palmas, sem dúvida. Mas é muito pouco perto dos desafios que um país como o Brasil deve enfrentar. O desenvolvimento de novas tecnologias e a superação de nossa dependência externa nas áreas de alto valor agregado deveriam ser metas estruturantes de nossa economia. O empreendedorismo à brasileira precisa avançar. E avançar até o surgimento de um Elon Musk dos trópicos.


Na imagem: da esquerda para direita, Carlos Alberto Sicupira, Jorge Paulo Lemann e Marcel Herrmann Telles. Divulgação.

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