Estamos formando bons administradores?

Em um país que despeja milhares de administradores no mercado de trabalho todos os anos, cabe perguntar que tipo de formação está sendo oferecida a esses profissionais. A resposta a essa pergunta não costuma ser alentadora. Um curso na área pode ser montado com investimento relativamente baixo: salas de aula, carteiras, lousas, meia dúzia de projetores, uma biblioteca cheia de manuais e um corpo docente. Este último pode ser bem ou mal pago, dotado de boa formação ou não. Também há que se considerar o projeto pedagógico adotado, que pode investir na criatividade ou se contentar com a mesmice. A este respeito, alguns autores famosos publicam manuais para tudo: gestão de recursos humanos, teoria da administração, planejamento estratégico, gestão de projetos, etc. E esses manuais formam, de modo geral, a bibliografia básica da administração no Brasil. O que poderíamos chamar de literatura da mesmice.

Talvez seja o caso de perguntar se essa formação enlatada, que combina cursos padronizados e bibliografia idem, pode produzir administradores capazes de atuar para além da gestão do cotidiano. Em outras palavras, se pensarmos na velha e superada Escola do Processo Administrativo (Teoria Neoclássica da Administração), o feijão com arroz da gestão ensinado em nossas graduações, vale questionar se formamos profissionais dinâmicos e inventivos ou apenas gestores dos processos banais do dia a dia. Ao que parece, na era da informação e da sociedade em rede, em que soluções rápidas e criativas são necessárias a todo instante, estamos formando uma massa de indivíduos dotados de pouco repertório para o enfrentamento da realidade. Uma realidade complexa e veloz, com transformações a todo instante e movimentos rápidos do mercado – ora de concentração, ora de pulverização.

Acredito que o profissional da gestão deveria possuir uma formação profundamente interdisciplinar, capaz de fugir das platitudes dos manuais e de garantir análises mais amplas da sociedade contemporânea. Sociologia, antropologia, ciência política, história, geografia, economia, artes, tudo isso deveria ter espaço privilegiado em seu currículo. Tais conhecimentos são importantes para estabelecer uma leitura mais profunda da realidade, capaz de captar tendências e ignorar o bestiário das fake news.

A cultura do manual precisa ser substituída com urgência. O exemplo dos cursos de Ciências Sociais é bastante interessante: ao longo de uma graduação, o aluno deve ler capítulos, livros e artigos dos mais diversos autores, para tomar contato com a diversidade do pensamento e lidar com obras de maior fôlego e consistência. Aliás, esse é outro ponto que merece destaque: a leitura. Principal fonte de conhecimento e prática indispensável à formação, parece estar em franco declínio. Quando estava na universidade, em uma semana tranquila costumava ler aproximadamente 100 páginas – mas o número costumava ser bem maior. Atualmente, convencer um aluno a ler um mísero artigo semanal parece tema para poemas épicos.

Da graduação enlatada, com formação enlatada e leituras – quando existem – enlatadas, fica difícil imaginar que teremos um profissional capaz de propor algo além do óbvio. Donde se conclui que não é mero acaso que o administrador médio enxergue a solução para todos os seus problemas no binômio planilha-compressão de custos. Na verdade, ganhos de eficiência estão relacionados a processos inovadores, com novas soluções, ideias e produtos. E pensar de forma inovadora depende de formação diversificada, interdisciplinar, que combina informações de campos variados e encoraja o pensamento criativo. Mais uma vez, não se pode esperar a criação do novo a partir de cursos conservadores e repetitivos. Em um mundo tão competitivo, em que uma empresa privada estadunidense promete enviar um homem a Marte em futuro próximo, estamos produzindo obsoletas engrenagens para perpetuação do marasmo no campo da administração.


Imagem: domínio público.

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