Em que pese a necessidade de inovação e reinvenção, merece destaque a infinita capacidade dos gurus da administração em criar modismos. Como o curandeiro do início do século XX, que vagava de cidade em cidade oferecendo elixires milagrosos, consultores produzem cardápios com soluções mirabolantes para todo tipo de problema de produtividade:
- Versões atualizadas do tradicional confinamento de trabalhadores em hotéis, para tratar “do futuro da empresa”;
- Dinâmicas de grupo em que todos são estimulados a falar com “sinceridade”, não importa quem saia ferido do processo;
- Mesas de pebolim e sinuca – e a indefectível máquina de café expresso – para disfarçar jornadas intermináveis;
- Longos discursos sobre liberdade para camuflar a instabilidade da relação profissional;
- Recomendação de leituras milagrosas em que a platitude é a regra (variações sobre o queijo e quem teria mexido no mesmo);
- Dinâmicas para estímulo da cooperação que abusam da criatividade: folclóricos rituais para “comemorar” a ascensão profissional; simulações de treinos militares; a famosa descida na corredeira, também conhecida como rafting; e por aí vai.
Muita gente boa acredita que esse tipo de coisa funciona. Tenho minhas desconfianças. Ainda que o mundo tenha mudado dramaticamente desde a popularização da internet e a difusão das tecnologias da informação e comunicação, algumas lições do fordismo permanecem. Indivíduo valorizado, com segurança no trabalho, bem pago, com objetivos claros e liderança competente costuma render mais. Também ajuda a clareza de que, sendo humano e desejoso de convívio social e lazer, o trabalhador costuma ter melhor desempenho com uma jornada civilizada. Afinal, não conheço muitos médicos que diriam ser razoável a multiplicação de horas extras e a cobrança excessiva por resultados.
Talvez seja o caso de questionarmos os consultores-curandeiros e tentarmos abordagens mais consistentes. Você já conversou com seus funcionários? Fez um levantamento das necessidades da equipe? Deixou claro qual o objetivo a ser atingido? A jornada de trabalho respeita a legislação e oferece tempo suficiente para descanso e lazer? Há justiça distributiva na estrutura salarial da empresa? Recorrer a uma pesquisa séria, metodologicamente consistente e de alcance interdisciplinar costuma oferecer resultados muito melhores que os truques de mágica de alguns consultores e a leitura de manuais vazios de conteúdo.
Foto: morgueFile.com – krosseel
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