Fracasso: você ainda vai ter o seu!

Com a crescente oferta de abordagens “quânticas” e outras bobagens do gênero, o campo verdadeiramente acadêmico da administração e gestão tem procurado se mobilizar. Administradores, sociólogos, psicólogos e demais interessados em análises racionais têm se esforçado para denunciar as pseudociências que proliferam junto a uma terrível explosão populacional de coachs.

Graduado em Ciências Sociais, mestre em Antropologia Social e com um interesse de mais de uma década em sociologia do trabalho, meu olhar para a Administração é, de partida, um pouco mais crítico que a média. Não me peça para falar em “time”, “colaborador” ou “associado”: o nome é trabalhador. Do mesmo modo, não venha me falar da gestão alinhada com as energias dos signos do time por uma orientação quântica… Eu acredito em análise metódica e racional dos processos produtivos e acho importante ler sobre Administração. Em outras palavras, para aprender sobre gestão, tente estudar Frederick W. Taylor, Henry Ford, Henri Fayol, Elton Mayo, Peter Drucker e Taiichi Ohno. Procure conhecer a biografia de verdadeiros empreendedores – Eiji Toyoda, Bill Gates, Steve Jobs e o próprio Ford -, não daqueles que só empreendem no palco. Enfim, convém ler, ouvir e assistir, acumular conhecimentos de forma meticulosa, estudar o maior número possível de casos e não cair, jamais, na tentação do senso comum. Nesse sentido, a experiência prática, quando bem realizada e refletida, também é de fundamental importância.

No entanto, há um ponto em que alguns estudiosos sérios e todos os curandeiros quânticos se encontram: a recusa em tratar do fracasso. Ao que parece, a simples menção ao termo seria capaz de converter uma pessoa bem-sucedida em perdedora irrecuperável – ou, no jargão estadunidense e da sessão da tarde, em um loser.

Ainda que os magos da neurolinguística torçam seus vitoriosos narizes, vamos ao tema. Por fracasso podemos entender:

  • A incapacidade em alcançar uma meta;
  • Uma situação de ruína financeira e/ou existencial;
  • A falência de uma empresa ou negócio;
  • Uma situação de profunda insatisfação pessoal: aqueles momentos em que, mesmo com o resultado material alcançado, resta a sensação de que a jornada foi infrutífera.

O fracasso, em geral, não é obra do acaso. Ao buscar uma formação acadêmica adequada, atualizações frequentes, a construção de um bom plano de negócios e o melhor posicionamento possível em um determinado cenário econômico, podemos reduzir drasticamente os riscos de uma derrota. A junção de despreparo com propostas de negócios delirantes costuma ser infalível para aumentar as taxas de mortalidade empresarial. Uma realidade particularmente triste em um país como o Brasil, de baixa maturidade no campo da Administração.

Mas, ainda que você se prepare e faça um plano de negócios extremamente detalhado, pode ser que algo dê errado. Uma virada do mercado, declarações exóticas do presidente de turno, a chegada de um concorrente chinês, uma tecnologia disruptiva ou mesmo um mau momento pessoal: tais possibilidades existem e podem ser determinantes para um fracasso. Nesse caso, de quem é a culpa? Algum item pode ter sido subestimado, você pode ter negligenciado algum detalhe que depois se mostrou importante… Mas, veja, é realmente possível considerar todas as variáveis? Na medida em que formalizamos (colocamos no papel) apenas uma fração da realidade, sempre vai haver algum ponto cego, alguma variável desprezada. Também é preciso considerar que o Brasil, como péssimo roteirista que é, sempre inclui algum personagem novo na trama, de forma repentina, para bagunçar o enredo: no passado, eram os planos econômicos; atualmente, são os políticos que surfam nas fake news e insistem em dizer que a foto do satélite está errada.

Além das seitas quânticas da gestão, temos os apóstolos da meritocracia, aqueles que se esforçam em repetir que, com muito esforço e uma dieta low carb, você pode tudo e é infalível/invencível. Lamento informar, mas não, você não é um super herói: pode ser que dê tudo errado e aí você vai precisar de ferramentas para lidar com essa situação – ou o cenário pode ficar ainda pior. Mas quais seriam tais ferramentas? Primeiro: reservas materiais podem amenizar enormemente um impacto negativo. Você fez uma poupança? Tem uma reserva de recursos? Quitou a casa, o carro e separou o suficiente para o plano de saúde e a escola das crianças? Investir até o último centavo em alguma coisa, por conta da “certeza do sucesso” e a “reprogramação neurolinguística”, é um caminho seguro para converter o fracasso em tragédia. Segundo: o tropeço pode ser submetido a uma autópsia? Faltou preparação em um ponto específico? Um curso poderia ter ajudado? Ou o planejamento negligenciou algum item importante? Objetivamente, é possível explicar o que deu errado e realizar uma boa reciclagem? Terceiro: fracassar não é um atestado de bom ou mau caráter. Pessoas ótimas podem ter dificuldades nos negócios e pessoas péssimas podem terminar a existência bilionárias. Os problemas em uma iniciativa podem se converter em material para reflexão sobre objetivos para a vida e propósitos existenciais. Não devem, jamais, ser encarados como atestado de (in)dignidade.

Enfim, tanto nos negócios, quanto na vida pessoal, você pode ter de lidar com o fracasso. Isso é muito triste e gera uma sensação de abatimento enorme: fica a sensação de um grande rombo, naquele espaço antes ocupado por grandes esperanças e alegrias. Mas é um fato da vida: tal possibilidade existe, mesmo que você se esforce ao máximo para mitigá-la. Desse modo, a atitude mais madura e serena me parece ser a de preparação. Caso tudo dê certo, ótimo. Mas, se a vida pregar uma peça, ao menos você vai ter uma caixa de ferramentas para tentar uma solução emergencial.


Imagem: Gratisography via Pexels.com.

*Atualizado para correção de erro ortográfico em 06/09/2019, 18:44.

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