Ficção científica e gestão

1. Civilizações alienígenas?

Além da Terra, em algum outro lugar do cosmo, talvez mesmo na Via Láctea, existe vida. Trata-se de uma certeza matemática, dada a vastidão de nosso universo, de que há alguma civilização habitando um ou mais planetas, em algum outro sistema solar.

A esse respeito, aliás, podemos fazer algumas breves considerações. Até o começo da década de 1990, a existência de planetas fora de nosso sistema solar era mera especulação. Desconfiávamos de sua presença, mas não tínhamos tecnologia suficiente para observá-los. Agora já possuímos milhares deles catalogados, graças a complexas técnicas de detecção, que incluem a observação da variação do brilho de estrelas, entre outras possibilidades.

No senso comum da astronomia de botequim, a água, um dos elementos propiciadores da vida, muitas vezes é percebida como uma exclusividade terrestre. Já se sabe, porém, que existe em Marte; Europa (satélite de Júpiter que possui vastos oceanos sob sua superfície de gelo); Encélado (satélite de Saturno que, não fosse o formato esférico, poderia ser considerado um cubo de gelo); e no planeta-anão Plutão, que contém traços de gelo em sua superfície e um manto de água líquida em seu interior. Também se especula a presença de grandes quantidades de água em Calisto e Ganimedes (satélites de Júpiter) e Titã (satélite de Saturno).

O universo observável, por sua vez, seria formado por centenas de bilhões de galáxias, as quais seriam compostas por estrelas aos milhões ou bilhões e estas, ainda, com planetas a girar ao seu redor em sistemas solares… Enfim, trata-se de presunção extremada acreditar que a vida existe de forma única e exclusiva em nosso planeta. Uma esfera que também é habitada por terraplanistas e adeptos do geocentrismo. E não podemos nos esquecer, ainda, daqueles que acreditam que seríamos o fruto de um ato de vontade de um ser que, em algum momento, disse: estou entediado, vamos lá criar o universo e a humanidade.

2. Como se vive em outros mundos?

Feito esse preâmbulo, embora a existência de outras civilizações seja algo bastante razoável, senão certo, ainda não as encontramos – desse modo, permanece justa a utilização da noção de “ficção científica”. Trata-se, todavia, do que chamaria de boa ficção: aquela que serve de incentivo ao desenvolvimento científico e ao esclarecimento de questões filosóficas. Embora a imagem seja desgastada, a ficção é a cenourinha que colocamos em frente ao burrico (a ciência) para que este continue a caminhar. Como exemplo, imagine quantas crianças se encantaram com uma possível carreira na astronomia e exploração espacial após assistir a algum filme da série Star Wars ou algum episódio de Star Trek.

Mas o que a ficção científica poderia oferecer à gestão? Primeiro, a oportunidade do livre pensamento, dada a infinidade de possibilidades do universo em que vivemos. Nessa vastidão, em que cada um de nós é ridiculamente pequeno e desimportante, talvez seja o cúmulo do egocentrismo acreditar que uma determinada decisão, boa ou má, vai mudar os destinos da humanidade de modo perpétuo – ainda mais quando se trata de escolher entre o grampeador preto ou prateado. Segundo, se há tantas possíveis civilizações existência afora, podemos imaginar os mais variados tipos de organização social: democráticas, tirânicas, oligárquicas, matriarcais, patriarcais, coletivistas, individualistas, estatistas, privatistas, etc. Isso se considerarmos apenas o que está ao nosso alcance, a partir de exemplos terrenos. Dessas formas de organização social emanariam diferentes modelos de gestão das atividades produtivas, o que permite um exercício de imaginação interessante. Este, inclusive, já foi tentado pela série Star Trek, The Next Generation (1987-1994): a nave Enterprise, sob comando do capitão Jean-Luc Picard, em sua missão de descobrimento e diálogo com novas civilizações, tomava contato com os mais variados tipos de sociedades.

A pergunta, enfim: como civilizações extraterrestres comandam pessoas, produzem mercadorias e distribuem riquezas? Embora tal questionamento possa parecer, à primeira vista, um delírio fantasioso, a agência espacial estadunidense, NASA, reflete sobre tais questões há algum tempo. Basta ver sua publicação Archaeology, Anthropology, and Interstellar Communication (Douglas A. Vakoch, org., 2014). Em livre tradução: Arqueologia, Antropologia e Comunicação Interestelar, uma coletânea de artigos sobre o tema que pode ser lida gratuitamente neste link.

3. Vida extraterrestre na Terra

Inicialmente, este texto pode parecer um delírio. Mas pensemos um pouco melhor e talvez nem precisemos olhar as estrelas para perceber os motivos de toda essa reflexão. Há uma variedade de modelos de organização social em nosso planeta que são solenemente ignorados pelo capitalismo: as comunidades indígenas da Amazônia; comunidades andinas; organizações tribais africanas; grupos aborígenes na Oceania; grupos culturais e religiosos dos mais variados tipos no subcontinente indiano; etc. Em nossa cegueira eurocêntrica e na vassalagem ao império estadunidense, também deixamos de estudar algumas formas de acumulação econômica entre as mais bem-sucedidas do mundo, como no caso da China. E descartamos, como lixo radioativo, Cuba e Coreia do Norte. Não se trata de “defender” tais exemplos e muito menos de adotá-los, que fique claro. Mas a crítica adequada, aquela que supera o senso comum, depende de conhecimento sólido sobre o que se pretende debater. Em suma: pouco ou nada sabemos sobre as sociedades e grupos culturais citados neste parágrafo, em uma ignorância digna de nota.

E agora que saímos dos confins do universo e já atravessamos cantos longínquos de nosso planeta, cabe questionar, por fim: você já pesquisou modelos alternativos de gestão? Já percebeu que reproduzimos modelos enlatados sob o hábil disfarce das “soluções personalizadas”? Na era em que tudo surge como “quântico”, em que todos os propósitos são conversíveis em metas e que vale tudo – inclusive cotovelada – para atingir o sucesso, talvez seja o caso de perguntar se não haveria alguma solução mais criativa. Onde foi parar a disposição em criar, inovar, descobrir possibilidades?

Vivemos tempos estranhos. Olhar para o céu, para todas as estrelas, e imaginar possibilidades: esse sim pode ser um caminho, fora do senso comum, para inovação. Mas, por outro lado, é chocante que tenhamos de lidar, por aqui, com pessoas que acreditam na “planitude” terrestre e que juram que nunca pisamos na Lua. Essas mesmas pessoas costumam considerar que as alternativas terrestres – sociais, políticas e culturais – também devem ser desprezadas – da estética da negritude aos modelos mais participativos de gestão. Só resta a esperança de que abracemos, em algum momento, formas mais arejadas, criativas, inovadoras e progressistas de entendimento da realidade. E que disso resultem modelos de gestão igualmente inovadores.


Imagem em destaque: trata-se de uma imagem em alta resolução produzida pelo telescópio espacial Hubble e que mostra uma grande variedade de galáxias, cada uma composta por bilhões de estrelas. Essa seria uma imagem do céu profundo, com galáxias inteiras onde normalmente costumamos ver estrelas. A imagem foi produzida entre 2003 e 2012 e é de domínio público. Autoria: NASA, ESA, H. Teplitz & M. Rafelski (IPAC/Caltech), A. Koekemoer (STScI), R. Windhorst (Arizona State University) e Z. Levay (STScI). Partes do texto desta legenda foram retiradas da Wikipédia.

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