O fim das burocracias administrativas?

Ao contrário do que indica o senso comum, o conceito de burocracia não deve ser associado, necessariamente, a algo ruim. Essa avaliação negativa é muito comum no Brasil, por conta de nossas estruturas administrativas complexas e ineficientes – tanto no setor público quanto no privado. De acordo com o sociólogo alemão Max Weber (1864-1920), o maior intelectual do século XX, a burocratização das atividades de gestão é uma decorrência dos processos de racionalização. Grosso modo, estes indicariam o paulatino ganho de protagonismo da razão como elemento organizador das práticas sociais. O que antes era mágico, religioso e, portanto, movido pelo sopro do divino, passa a ser orientado pelo cálculo, pelo científico e pela leitura metodologicamente orientada da realidade.

Tentando clarificar o parágrafo anterior, houve um tempo em que todos os aspectos do cotidiano, incluindo os negócios, pertenciam ao domínio do sagrado. Para investir, vender ou comprar era necessário pedir as bençãos a alguma divindade e seu representante terreno – o padre, o pastor, o monge, etc. Com a avassaladora expansão da lógica produtiva capitalista, sobretudo entre os séculos XVIII e XXI, as pessoas deixaram de pedir orientações de negócios aos deuses. Tal tarefa passou à responsabilidade dos empreendedores, negociantes, gestores e suas planilhas.

Nesse processo, a burocracia, como corpo especializado de funcionários dotados de competência para gestão dos negócios públicos e privados, passou a tomar forma. Trabalhadores treinados para tal finalidade, orientados por um padrão de conduta determinado e disciplinados por regras e códigos claramente descritos. Esses profissionais viriam a substituir os amadores – os amigos ou parentes do chefe, amparados por relações clientelistas. A competência, a impessoalidade e a disposição em atender às necessidades do público passaram a ser os elementos orientadores da atividade burocrática.

Tomemos dois exemplos para melhor ilustrar o que foi tratado até aqui. De um lado, a França de Luís XVI, quebrada pelo apoio à guerra de independência dos EUA, por uma aristocracia parasitária e por uma gestão pública catastrófica, totalmente desatenta à falência do Estado. De outro, o ideal da grande empresa toyotista, com o trabalhador adequadamente uniformizado, treinado, com metas bem definidas, obediência às regras, alinhamento à cultura corporativa e dedicação devocional à satisfação do “consumidor” – seja este quem for, é preciso atender bem.

Como dito no começo, o Brasil não costuma associar o termo “burocracia” ao ápice do processo de racionalização administrativa descrito por Weber. Pelo contrário, em nosso país, os termos “burocracia” e “burocratização” assumem sentido oposto: ineficiência, demora e complicações que favorecem, justamente, o clientelismo. Aquilo que costumamos traduzir no ditado popular que fala sobre criar dificuldades para vender facilidades: a ideia de que uma burocracia intransponível aumenta a disposição em buscar um “jeitinho”. Este texto, no entanto, não tem por objetivo o aprofundamento nas impossibilidades da gestão em nosso país, seja ela pública ou privada – afinal, se você acha que o problema é só da repartição pública, tente falar com uma operadora de serviços de telefonia…

O ponto que gostaríamos de levantar, neste texto, diz respeito ao próximo estágio do processo de racionalização da gestão. A formação de burocracias competentes dependeu, até aqui, de equipes de gestão de recursos humanos, departamentos de contabilidade, formulários, processos de controle, relógios de ponto, entre outros itens de uma vasta parafernália destinada a disciplinar trabalho e trabalhadores. Tal realidade esteve presente de modo inequívoco ao longo de todo o século XX, atravessando o taylorismo, fordismo e toyotismo. Todavia, aqui estamos nós, nas primeiras décadas do século XXI, lidando com o oposto de tudo isso, em um estágio “etéreo” da racionalização administrativa.

Na sociedade de controle em que ora vivemos, os formulários são eletrônicos; a supervisão do trabalho pode ser feita via tecnologias online de monitoramento; os aplicativos para comunicação instantânea, redes sociais e contas de e-mail podem alcançar a todos, a todo instante; a contabilidade também pode ser feita eletronicamente; o banco pode ser alcançado pelo smartphone… Enfim, vários protagonistas e procedimentos típicos da melhor burocracia desaparecem a cada dia. Ao ponto de termos dois exércitos que não param de crescer, ambos aumentados pelos egressos das burocracias administrativas. Por um lado, o exército industrial de reserva, com fileiras compostas pelas vítimas do desemprego estrutural. De outro, um gigantesco exército de “empreendedores individuais”, todos estes armados com um sítio na internet, um notebook e um cadastro de Microempreendedor Individual (MEI).

A burocracia, no melhor sentido weberiano do termo, virou aplicativo. As consequências disso? Essa resposta fica para um próximo texto. Ou um projeto de doutorado.


Bibliografia consultada:

COHN, Gabriel. Crítica e resignação. 2ª ed., atualizada. São Paulo (SP), Martins Fontes, 2003 [1979].

DELEUZE, Giles. Post-scriptum sobre as sociedades de controle. In: Conversações. São Paulo, Editora 34, 1992.

FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: nascimento da prisão. Petrópolis (RJ), Vozes, 2014.

LALLEMENT, Michel. História das ideias sociológicas: das origens a Max Weber. Vol. 1. Petrópolis (RJ), Vozes, 2012. Destaque para pp. 287-288.

VIEIRA FILHO, Antonio Gracias. O pensamento de Max Weber, uma breve introdução. Suzano (SP), apresentação para Faculdade Piaget, 2019.

WEBER, Max. A ética protestante e o “espírito” do capitalismo. São Paulo (SP), Companhia das Letras, 2004 [1905].

____________. Economia e sociedade. Vol. 1. Brasília (DF), Editora da UnB, 1999 [1922].

A videoaula do Profº Dr Gabriel Cohn para o programa Café Filosófico (s/d) também foi transcrita e consultada. Link: https://youtu.be/qU_zUBTsILQ (verificado em 03/04/2019).


Foto: Christina Morillo em Pexels.com.

 

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