O discurso e a prática na gestão

Antonio, eu não tenho dó de patrão não. Porque se ele tiver de me demitir, não vai pensar duas vezes.

Em minha terceira aula como docente no ensino superior, na disciplina de Sociologia das Organizações, escutei a frase acima. Minhas apresentações aconteciam às sextas-feiras à noite – o período, junto com as segundas pela manhã, em que todo professor começa sua carreira. Assim, a sexta gelada teve sua monotonia quebrada por essa frase, dita com certa gravidade. A colocação, amarga, veio de um aluno ponderado, que gostava de minhas aulas, e ficou marcada em minha memória, de modo que resolvi retomá-la com este texto.

Karl Marx explicaria o comentário acima no âmbito da luta de classes. Mas, em uma órbita mais modesta, pensemos nos desafios da gestão de pessoas e comunicação corporativa.

Nesse sentido, inicialmente, temos aquilo que as empresas afirmam fazer. Isso incluiria ouvir atentamente seus trabalhadores, suas queixas e demandas, para implementação de um modelo participativo de gestão. De forma adicional, temos a retórica da integração comunitária, em que a empresa se transformaria em uma grande família: acolhedora, compreensiva e sempre disposta a ajudar seus integrantes. Todo esse conjunto seria colado, peça por peça, pelo discurso da responsabilidade social e ambiental. Nosso negócio serve à comunidade e preserva o meio ambiente. Algo sempre repetido e que, imagino, deveria aparecer muito nas peças publicitárias da Vale. Em linhas gerais, esse é o discurso da empresa ideal, proposto por Peter Drucker em sua Administração por Objetivos (APO) e alegremente repetido por Chiavenato, em seus infinitos manuais.

O que as empresas de fato realizam, no entanto, é um tanto diferente. Em tempos de metas cada vez menos realistas, a gestão converte-se em exercício autoritário e pouco participativo. Embora as heroicas biografias corporativas vendam como água, o gestor do mundo real sabe pouco de liderança e muito sobre mandar. A busca obsessiva pela margem de lucro irreal se escora, quase sempre, na afirmação caricata de que precisamos superar os chineses. Considerando que a China tem quase um bilhão e meio de habitantes, a maior economia de escala do planeta, investimentos maciços em inovação e, muito importante, uma ditadura, admita, você não vai superá-la. Também vale questionar até que ponto é possível criar integração social nos ambientes (virtuais?) de trabalho em um capitalismo que se articula em redes. Quanto à responsabilidade social e ambiental, sempre podemos questionar tal discurso se considerarmos a indústria do tabaco, a indústria do açúcar, Brumadinho (MG), Mariana (MG), os bônus pagos aos presidentes de bancos, etc.

Assim, temos o que as empresas afirmam fazer e aquilo que, de fato, realizam. Cabe perguntar: de forma realista, o que as empresas deveriam fazer? Entre as muitas possibilidades de resposta a essa pergunta, só posso oferecer minha análise, que é um tanto peculiar: de antropólogo, sociólogo e crítico dos processos de gestão. Criamos um discurso corporativo verdadeiramente ideológico, que envolve a todos de forma tão potente e decisiva que chegamos a acreditar em sua veracidade. Assim, a empresa existe para realizar a felicidade de todos e jamais tomará medidas desagradáveis – desde que você faça parte da família e contribua com sua gestão democrática e participativa. Ora, todos sabemos que a dureza do cotidiano passa longe disso. Desse modo, por que não tentar a revolucionária abordagem de dizer a verdade? Isso incluiria algumas medidas simples, embora de estrondoso impacto:

  • Clareza: uma conexão realista entre discurso e prática. As coisas vão mal? Então vamos falar abertamente sobre isso. Temos problemas? Vamos resolver através do debate. Demissões serão necessárias? Então todos devem se preparar para esse possível cenário;
  • Participação: se a empresa tem uma cultura autoritária – e esse é um direito que toda empresa tem -, então que isso fique evidente em seu discurso e suas práticas. Mas, se a ideia é estimular a participação, talvez seja o caso de tentar iniciativas verdadeiramente democráticas. Alguém vai morrer se votarmos o cardápio do bandejão? Por que não ouvir a opinião dos trabalhadores sobre algum produto ou processo produtivo? O que eles acham da comunicação da empresa? O que eles acham sobre tudo e qualquer coisa? Embora formalmente superado, o trato taylorista da mão de obra subsiste entre gestores que buscam a bovinização de seus subordinados;
  • Responsabilidade social e ambiental: ora, conforme exponho aos meus alunos desde o primeiro dia de aula, empresas capitalistas têm, como objetivo fundamental, a obtenção de lucro. O que envolve de alimentos gordurosos a carros poluentes, passando pelas bebidas com quilos de açúcar em sua formulação. Tais empresas, por uma estratégia de comunicação ou senso de sobrevivência, devem (ou deveriam) informar seus consumidores sobre os riscos oferecidos por seus produtos, respeitar a legislação vigente, mitigar possíveis efeitos adversos de sua produção e contribuir, na medida do possível, com o bem-estar das comunidades em que atuam. Isso não inclui, em nenhum momento, a barragem rompida, o rótulo enganoso ou a recusa em ajudar instituições de cunho caritativo;
  • Segurança: esta é a base da integração comunitária. Além de tentar juntar seus trabalhadores, rompendo, ainda que temporariamente, a lógica crescente do home office, uma empresa tem que oferecer segurança aos seus subordinados. Para isso, é preciso que exista honestidade na comunicação, da forma mais radical possível – ainda que a mensagem seja desagradável. De forma adicional e igualmente importante, algumas palavras que parecem obsoletas completam o sentido dessa segurança: respeito aos direitos assegurados por lei e estabilidade. Ao contrário do que afirma o senso comum corporativo, a tensão permanente e a pressão extrema não formam bons profissionais. Tais elementos apenas formam pessoas dispostas a tudo, inclusive puxar o tapete do coleguinha para conseguir manter o emprego. A estabilidade é a chave para confiança e desempenho em longo prazo.

Enfim, tentei realizar uma análise comparativa entre discurso e prática no mundo corporativo, com a exposição de um programa de ação ao final. Espero que minha abordagem não pareça demasiado radical. Inclusive porque continuo a repetir: a empresa ancorada em valores humanistas pode ser muito lucrativa. Muito mais lucrativa, aliás, que a empresa interessada em esfolar sua mão de obra.


Foto em destaque: Pixabay em Pexels.com.

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