Ensinar administração no Brasil

Em meu trabalho no ensino superior, sou o responsável por alguns conteúdos “de ligação” entre as ciências humanas e outras áreas do saber. Isso inclui as disciplinas de introdução à sociologia e antropologia, Sociologia das Organizações, Introdução à Administração e outras que tratam de reflexões de cunho social e político. Por conta de interesses acadêmicos, busquei me aproximar da área de administração e gestão com um duplo propósito: levar uma reflexão crítica aos futuros gestores e ter a oportunidade de me aprofundar em debates que, espero, um dia farão parte de meu doutorado.

Minha chegada à docência não foi fácil: uma caminhada de alguns anos, na qual tive diálogos inacreditáveis com recrutadores que não tinham a mais pálida ideia do que seria um antropólogo. Em alguns momentos, achei que me perguntariam do que se alimenta um cientista social – ao som da abertura do Globo Repórter. Até que encontrei pessoas suficientemente sensíveis para enxergar meu potencial. E que me deram a oportunidade de operar o diálogo entre as humanidades e as ciências sociais aplicadas – como a administração. Após conseguir essa sonhada oportunidade, novos desafios surgiram.

Ensinar administração no Brasil envolve um conjunto grande e complexo de obstáculos. Alguns presentes em todo o ensino superior e outros específicos dessa área do saber. Quanto ao primeiro caso, em tempos de internet soa herética a cobrança por leitura. Gostaria muito de convencer meus alunos sobre a importância da apreciação de obras que contêm um bom número de páginas, parágrafos, palavras e ideias. Algumas análises pedem um tempo de assimilação mais longo, que não se pode alcançar na ligeira construção textual de uma revista ou página da internet. Por vezes, é preciso dedicar horas, dias e semanas à absorção de todo um sistema de pensamento. Como entender o impacto do fordismo em uma reflexão de 15 minutos? Como alcançar a revolução toyotista em 200 palavras? Não há poder de síntese que dê conta desses fenômenos. Mesmo com todo meu esforço de persuasão, ainda permanece uma tarefa impossível convencer um aluno a manter uma carga semanal de leitura de 50 páginas – 10 para cada dia útil, com os finais de semana preservados.

Outras dificuldades estão mais diretamente ligadas à área de administração e gestão. Primeiro, a baixa maturidade gerencial presente em muitas de nossas organizações. Sem uma cultura organizacional, padrões internos, sistemas de metas, etc, fica a impressão de que muitas de nossas empresas se mantêm de pé por alguma força divina. Já cheguei a ouvir, do proprietário de uma transportadora, quando questionado sobre planejamento, que “a empresa vai para onde o nosso nariz aponta”. Além dos muitos casos em que itens de fundamental importância, como a tríade “missão, visão e valores”, são definidos ao final do expediente de sexta-feira, pelo sobrinho do dono, que “entende tudo dessas coisas”. Nesse cenário, muito comum em micro, pequenas e médias empresas, qual o incentivo para propor melhorias ou inovar? Qual o incentivo para estudar e implementar boas práticas de administração e gestão?

Em sentido oposto e complementar, temos as grandes corporações, com disciplina interna e culturas consolidadas. Talvez essas instiguem o desejo pelo aprendizado, pela possibilidade de abraçar uma carreira em longo prazo. Mas nem todos serão contratados pelas grandes empresas ou ficarão nelas por tempo suficiente para gerar o importante diálogo entre aprendizado acadêmico e prática profissional. De todo modo, ainda que o futuro gestor consiga se fixar nesse espaço, há um problema relevante a ser superado. Muitas vezes, o ensino em administração não é orientado para empreender ou inovar, mas apenas para ascender na hierarquia corporativa. Não há problema em querer receber mais ou subir no organograma, mas é preciso questionar o papel do ensino de administração se ele limita seus estudantes a esse estreito horizonte de oportunidades.

Voltando à leitura, o uso exagerado de manuais também parece algo questionável. Tais obras são úteis para oferecer uma visão panorâmica do conhecimento, de modo que o estudante consiga se localizar entre múltiplas escolas de pensamento. No entanto, a reflexão com maior profundidade teórica e caráter autoral deveria ser mais utilizada. Por que não ler um pouco de Max Weber, no original, para entender o que este diz do conceito de burocracia? Por que não experimentar algumas páginas de Peter Drucker, com suas reflexões que contribuíram para formar gerações de executivos? E por que não ler alguns críticos da própria administração, só para variar? Não basta apenas ler mais, é preciso ler com maior qualidade.

A diferença entre o gestor mediano e a grande liderança reside na amplitude da formação. Para fazer a gestão do cotidiano, basta ler um pouco, passar por algumas empresas mais ou menos organizadas e decorar um bom manual. Para se tornar uma liderança, é preciso adquirir conhecimentos e sensibilidades: muita leitura, desafios profissionais inspiradores, atenção às novidades, desejo de inovar, curiosidade intelectual e, também, um tanto de cinema, música, política e percepção de tendências. Veja, se você quer ser uma liderança capaz de inspirar, precisa ir além do básico. Não basta ficar no Chiavenato, precisa ler sociólogos e psicólogos, conviver com engenheiros, ficar na biblioteca até sofrer uma crise de rinite.

Por fim, talvez seja uma falha exclusivamente minha. Talvez uma falha de minha geração de professores. Ou – quem sabe? – uma falha sistêmica. Mas não conseguimos demonstrar aos nossos alunos como uma formação banal irá entregar apenas instrumentos para lidar com banalidades. Para inovar e chegar ao topo, é preciso buscar o conhecimento de forma dedicada, diversificada e ousada.


Foto em destaque: Pixabay em Pexels.com.

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