Brasil 2019, as indefinições permanecem

No último ano, durante o período eleitoral, um dos poucos comentários capazes de unir eleitores de todos os candidatos dizia que, com a escolha do novo presidente, ao menos teríamos algum projeto claro para o Brasil. A completa irrelevância do antigo ocupante do cargo, Michel Temer (MDB), reforçava a impressão de que o país estava à deriva – e em águas turbulentas. Assim, a definição de um modelo – fosse ele privatista ou estatista, conservador ou progressista – seria o mínimo para projetarmos algum rumo para retomada do crescimento.

Conforme já assinalado em outros textos do portal Sociologia da Gestão, o maior ativo de gestores e investidores é a possibilidade de antecipar cenários. Afinal, se não há um mínimo de previsibilidade, não pode haver planejamento. Em tese, portanto, a escolha de um presidente com uma agenda clara seria muito positiva. Mas, embora a Bovespa continue a bater recordes, os problemas da nova gestão começam a se avolumar de tal modo que não é mais possível ignorá-los. E não me refiro àqueles herdados de gestões anteriores: o presidente Jair Bolsonaro (PSL) já possui crises novinhas em folha, capazes de preocupar investidores e complicar a vida dos administradores. O ponto de convergência dessas crises é a péssima comunicação presidencial, que anula a tal previsibilidade e, por conseguinte, a possibilidade de fazer planos.

Em uma lista sucinta, podemos enumerar os seguintes problemas da atual gestão:

1. Comunicação, o problema central

A comunicação governamental é caótica e o tom belicoso herdado da campanha eleitoral não ajuda a acalmar os ânimos. Fora a agressividade, não se sabe exatamente quem fala pelo governo federal: o presidente Jair Bolsonaro; seu filho, Carlos Bolsonaro; o porta-voz da presidência, general Otávio Rêgo Barros; o ministro do Gabinete de Segurança Institucional, general Augusto Heleno; ou o ideólogo Olavo de Carvalho. Também fica difícil compreender o que haveria de razoável em certas publicações via Twitter que mais se assemelham a comentários típicos de discussões adolescentes. Pode ser uma tática para aproximação com o grande público, tal qual Donald Trump tem feito nos EUA. Mas, pelos conteúdos recentemente divulgados, fica a impressão de que a dignidade do cargo presidencial foi prejudicada.

2. Projetos e reformas

Concordemos ou não com a agenda da nova administração, cabe dizer que ela representa o projeto vencedor nas urnas. E as propostas centrais de Paulo Guedes, ministro da Economia, sempre foram inequívocas: diminuição do Estado, aprofundamento da reforma trabalhista e reforma da previdência. Esta última com a definição de uma idade mínima para aposentadoria e regras bem mais duras para o valor integral.

Tais reformas dependem de um bom relacionamento com o Congresso Nacional e este, avesso a medidas impopulares e confusões palacianas, tem respondido com sorrisos amarelos. Discussões adiadas, cobranças sobre a previdência dos militares, reclamações sobre a articulação governamental… Mesmo que consideremos o fato desta gestão não ter completado 90 dias, a urgência prometida durante as eleições começa a se perder. E a famosa lua de mel do primeiro semestre de governo chega à metade sem grandes realizações – a não ser que consideremos a demissão do ministro da Secretaria Geral da Presidência, Gustavo Bebianno (PSL), uma realização.

Quanto à diminuição do Estado, duas questões merecem destaque. Primeiro, a redução do número de ministérios não foi tão grande quanto a prometida em campanha. E, mesmo ficando aquém do prometido, a diminuição de espaços foi suficiente para incomodar grupos de interesse – como ficou evidente na polêmica sobre o possível fim do Ministério do Meio Ambiente. Segundo, mesmo que a busca pela eficiência e qualidade no gasto público deva ser perseguida sem trégua, vale analisar, com maior detalhe, o que diminuir. Um Estado que não consegue fiscalizar barragens e enviar médicos para seus territórios mais distantes deve diminuir de que modo? Para essa pergunta ainda não há uma resposta óbvia.

3. Disputas ideológicas

Nesse contexto, em que dificuldades são criadas pelo próprio governo todos os dias, certas controvérsias parecem inacreditáveis. As recentes disputas ideológicas são tão amplas e rocambolescas que misturam Olavo de Carvalho, o presidente Jair Bolsonaro, seus filhos Carlos e Eduardo, Ricardo Vélez Rodríguez (ministro da Educação), Damares Alves (ministra dos Direitos Humanos), a ala militar da administração e mais uma meia dúzia de figurantes. Patrulhamento sobre uns e outros, lealdades traídas… De que modo todo esse ruído pode ajudar o país a superar a crise? O Brasil viu o PIB (Produto Interno Bruto) diminuir em 2015 e 2016, com uma recuperação pífia, na casa de 1%, em 2017 e 2018. Por conta disso, é importante refletir sobre a pouca utilidade de disputas desagregadoras, de baixa densidade intelectual e com discursos agressivos herdados da campanha eleitoral.

Fechando esta análise, podemos voltar ao título: a incerteza permanece. O que é ruim para os negócios, pois prejudica a possibilidade de planejamento e reforça a instabilidade institucional que vivenciamos desde 2013.

Já é hora do novo governo buscar a rota da pacificação.


Foto em destaque: Marcelo Camargo/Agência Brasil.

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