A esquerda reacionária
Meu agradecimento à Catarina Eya, pela leitura atenta.
1. Editorial
A escrita de um texto como este requer alguns cuidados de caráter editorial. Dos vários problemas que afligem o debate público contemporâneo, parece que a desonestidade intelectual é dos mais relevantes. Pensemos em um autor como George Orwell (1903-1950): combatente na guerra civil espanhola ao lado das forças da República, defensor das liberdades individuais, crítico de toda forma de autoritarismo e atuante no esforço de guerra do Reino Unido contra o nazismo. Eis suas credenciais. Duas de suas obras merecem particular atenção, quais sejam, A revolução dos bichos (Animal Farm, 1945) e 1984 (1949). Em ambas, podemos destacar o libelo contra o totalitarismo, o Estado que esmaga o indivíduo, os riscos das revoluções que se voltam contra os próprios revolucionários e assim por diante. Importante reforçar, para que não fiquem dúvidas: Orwell lutou ao lado de militantes de esquerda na Espanha e combateu o nazifascismo. Nessas duas obras, podemos notar algo entre o alerta e o desencanto, por conta dos rumos absolutamente autocráticos que o socialismo veio a adquirir na União Soviética sob Josef Stalin (1878-1953). Não se trata de uma crítica ao socialismo, mas, antes, ao que se criou em seu nome, ao abuso autoritário que se voltou contra os indivíduos e a sociedade civil. Não espanta, portanto, que Napoleon e o Grande Irmão sejam a cara de Stalin ou que a fazenda dos animais, criada com os melhores propósitos, tenha sido traída pelo grupo dirigente suíno.
A reflexão anterior, disponível em qualquer biografia ou análise literária sobre o autor – e que não possui nada de fantasioso ou complexo –, não foi capaz de impedir que a obra de Orwell fosse sequestrada pela recente vaga reacionária. Na verdade, o autor passou a ser leitura obrigatória entre círculos cristãos medievalistas, anarcocapitalistas e quaisquer detratores do pensamento progressista e/ou de teses que contemplem algum tipo de projeto coletivo. O que deveria ser o aviso de um escritor que lutou contra o franquismo e o nazismo, tinha simpatias pelo socialismo e que advertiu para a tragédia do stalinismo, agora, se converteu em escritura sagrada de quem abomina qualquer coisa que se aproxime do pensamento de esquerda. Algo similar tem ocorrido de forma ainda mais recente quando pensamos nos filmes da franquia Matrix (1999-2021), criação das irmãs Lana e Lilly Wachowski. Uma cena icônica do primeiro filme da série mostra um personagem que oferece ao protagonista duas pílulas, uma azul e outra vermelha. Caso desejasse continuar sem saber o que a realidade é de fato, deveria tomar a azul. Assim permaneceria em um mundo de sonho e ilusão. Para saber a verdade, deveria tomar a vermelha. Essa passagem foi utilizada inúmeras vezes para explicar, entre outros conceitos, a noção de ideologia de Karl Marx (1818-1883). Nada faz crer que as irmãs – que são mulheres trans – nutram qualquer tipo de simpatia por ideias de caráter reacionário. Isso não impediu, todavia, o surgimento de um certo movimento red pill que junta celibatários involuntários (incels); vendedores de cursos para formação de machos alfa; pessoas que desejam que o Estado desapareça; toda uma gama de figuras à direita, que oscilam entre o conservadorismo e o reacionarismo; e gente como Elon Musk e Ivanka Trump.
Este editorial tem o propósito de evitar alguns dos problemas descritos até aqui. Que fique claro: o presente ensaio não é de autoria de alguém à direita no espectro político-ideológico – pelo contrário, aliás. Não se trata, portanto, de negar pautas, propósitos, concepções teóricas ou o que quer que seja do campo progressista. Inclusive acho importante começar com algumas declarações de princípio que, embora possam parecer evidentes para alguns, merecem ser reafirmadas diante dos muitos negacionismos que ora enfrentamos. Assim, cabe dizer que o racismo existe e, como ele, o machismo, a misoginia, homofobia, transfobia, gordofobia, etarismo, capacitismo, intolerância religiosa, classismo, aporofobia, antissemitismo, islamofobia, xenofobia etc. Nomeie um grupo que destoe de algum tipo de padrão – fenotípico, de beleza, forma de pensamento – e você irá encontrar alguma forma de intolerância e discriminação. Em todos esses fenômenos, há violência física, psicológica e simbólica, com mortes, traumas e apagamentos. Este texto, repito, não nega qualquer um desses fatos. Também é importante afirmar que defendo o protagonismo do pensamento de esquerda para o debate, compreensão e tentativa de solução de tais problemas, seja por políticas públicas, seja pela construção social de novos valores e comportamentos.
Isso posto, com a esperança de que esta reflexão não seja abduzida pelos promotores da desonestidade intelectual, que campeiam da extrema-esquerda à extrema-direita, o que se pretende, neste texto, é discutir a formação de uma esquerda reacionária. Trata-se de um conjunto de grupos, movimentos e pessoas que cultivam ideais que, embora associados ao campo progressista, trazem consigo elementos reacionários. De forma ainda mais clara, embora rasa, o que se quer é iniciar uma interpretação de alguns fenômenos que têm ganho cada vez maior destaque em redes sociais, canais midiáticos e variados espaços do debate público: o feminismo transfóbico; a cultura do cancelamento; a incapacidade de diferenciação entre público, privado e pessoal; o cerceamento do desejo e do erotismo; e a reabilitação histórica de maníacos.
Para começar, o conceito de esquerda reacionária, que será construído ao longo dos próximos parágrafos, diz respeito a uma fração que se afirma parte do campo político-ideológico progressista. Tal fração é incapaz, por exemplo, de realizar uma reflexão crítica que dê conta dos equívocos produzidos por experiências reais de socialismo. Mas, vejam, não se trata de gastar páginas e livros para discutir honestamente, com seus detalhes e contradições, os avanços e os problemas da experiência cubana. A dificuldade dessas pessoas está em admitir que Stalin foi o responsável pela morte de muitos milhares de opositores políticos, enquanto promovia o culto à sua personalidade. O desafio consiste em fazer acreditar, em uma parte da esquerda, em um consenso histórico da magnitude da esfericidade da Terra. Uma outra beirada dessa fração recupera e atualiza discursos intolerantes, que introduzem novas divisões nesse campo político, historicamente já tão fragmentado. Assim como qualquer homem negro é visto como “degenerado” pelo supremacismo branco, mulheres trans são vistas como “homens pervertidos” pelo feminismo radical, no caso, o radfem. Quanto à arena pública, pessoas são acusadas de forma irresponsável, por delitos de opinião, ou condenadas por suspeição, e sua violenta punição é imediata. E não se trata de defender o comediante de discurso odiento ou algum ex-goleiro assassino: o problema existe quando uma pessoa pode ser acusada de pedofilia, investigada, inocentada para além de qualquer dúvida e, ainda assim, passar a vida sofrendo “esculachos” promovidos por gente que se diz esclarecida. A esquerda reacionária é antiliberal, anti-iluminista, contrária à tolerância e árdua defensora do denuncismo.
2. Problemas de caráter epistemológico
Essa fração tem, de partida, problemas em sua relação com o conhecimento – especialmente aquele construído via método científico. Ora se apresenta positivista, essencialista e biologizante; ora se apoia em construções “tradicionais” – uma generalização que, na prática, junta misticismo, senso comum e recusa às conexões de causa e efeito baseadas em lógica, racionalidade, experimentação e demonstração.
Ela é positivista em todas as situações em que afirma existir apenas uma realidade objetiva, que precisa ser descoberta e nomeada, sendo todo o restante resultado de invencionices sociológicas. Em outras palavras, não existem, por exemplo, pessoas trans. O mundo é povoado por machos e fêmeas, sendo que um homem é um macho humano adulto e uma mulher é uma fêmea humana adulta. Isso seria muito fácil de demonstrar, pois se trata de um fato biológico com materialidade genética, anatômica, morfológica etc. Para além da Biologia, portanto, o que sobra é criação e interpretação sociocultural, algo que não deveria ser levado em conta como parte da existência. Nessa linha de análise, temos que um fato biológico inquestionável seria obscurecido por construções sociais que, no caso de pessoas trans, obedeceriam a pautas inconfessáveis – em geral, a ideia de que “homens de saia” estariam se articulando para, como ponta de lança do patriarcado, destruir o feminismo por dentro.
O grande formalizador da Sociologia enquanto ciência dotada de arcabouço metodológico e conceitual próprio, o senhor Émile Durkheim (1858-1917), era ele próprio um tanto influenciado pelo pensamento positivista. Isso não o impediu, entretanto, de perceber que fatos sociais são, como o nome sugere, fatos. Fatos biológicos e fatos sociais não são sinônimos e não se anulam mutuamente. Sua relação é bem mais complexa. Caso houvesse uma relação de sinonímia ou rebatimento radical entre Biologia e relações sociais, não teríamos de lidar, por exemplo, com o problema do racismo. Realmente, a raça, enquanto fato biológico, é de difícil sustentação: além das diferenças genéticas entre indivíduos de diferentes cores serem irrisórias, como quantificar com exatidão as quantidades de melanina a definir as fronteiras entre diferentes raças? Aliás, quantas são, exatamente? Essas são perguntas de difícil resposta e que não encontram grande respaldo na Biologia. Isso nunca impediu que a raça enquanto fato social e cultural tivesse materialidade inquestionável. A raça é um fato em desconstrução, algo que recebe a crítica de diferentes campos científicos, mas que é reconhecida e tem rendimento na existência.
A transexualidade é um fato social, cultural, psicológico e filosófico, por vezes biológico, que nos permite incluir nas categorias “homem” e “mulher” uma grande variedade de corpos, com diferentes anatomias e morfologias. Embora a Biologia seja uma ciência e as pessoas com útero tenham sido pioneiras em sua classificação como mulheres, isso não autoriza reduzir a análise da realidade a um essencialismo biológico. Cabe dizer, inclusive, que chamamos homens de homens e mulheres de mulheres não por alguma determinação divina, tampouco porque esses vocábulos ecoam misticamente em laboratórios de Biologia. Tais palavras, bem como as pessoas que por elas são designadas, são o resultado de convenções e construções sociais, culturais e históricas. Então basta se sentir mulher? Talvez baste. Talvez a pessoa que se dispõe à execração pública para mudar seu grupo de pertencimento assim o faça porque se sente, porque vive, porque se enxerga, porque se compreende como mulher – ou como homem, no caso dos homens trans.
A narrativa de que essas pessoas estão a buscar algum tipo de realização de capricho pessoal procura se apoiar nesse truque positivista, apontado no início desta digressão. Tendo nascido com um determinado corpo, cabe ao ser se conformar com uma determinada categorização social, ainda que tudo em si diga o contrário. Ainda que estejamos diante de um número crescente de pessoas que só encontram razão existencial nessa ressignificação. Aliás, se a Biologia pode ser uma valiosa aliada na crítica à noção de raça, talvez seja o caso de perceber as Ciências Humanas como parceiras na afirmação da causa trans, pelo que promove quanto à diversidade, liberdade e possibilidades de autoafirmação.
Feita a conexão com o pensamento positivista, passemos, agora, à negação da ciência. Essa movimentação se apoia em uma ressurgência do senso comum – que, nesse caso, atende por nomes tão variados quanto “saberes tradicionais”, “terapias integrativas”, “respeito a todas as formas de vida” etc. Aqui, estamos falando das pessoas, alinhadas ao campo progressista, que fazem a crítica à indústria farmacêutica, à medicalização da vida, à alopatia, ao excessivo consumo de fármacos, às terapias psicológicas e psicanalíticas convencionais etc. Ainda que esses campos de pesquisa, diagnóstico e terapêutica citados sejam fundamentais, indivíduos com inclinações esotéricas duvidosas sugerem soluções como a homeopatia, reiki, constelação familiar, florais, as tiragens de “tarô terapêutico”, o uso de óleo de coco em cada dobra do corpo e assim por diante. O negacionismo associado a um sentimento jocosamente designado como “gratiluz” está presente na adesão às pseudociências e na dificuldade em análises éticas mais sofisticadas. Não se trata de negar o direito das pessoas a alguma crença, tampouco de exigir que toda visão de mundo seja exclusivamente racional e científica. O problema surge quando se tenta igualar eficácia simbólica e efetividade experimental. De forma mais clara: uma fé pode criar sentidos, ao imaginar o além-mundo; mas pneumonias bacterianas respondem melhor a antibióticos. Ou: o oráculo pode sugerir caminhos para seu espírito, mas a química cerebral fica melhor assistida com medicação psiquiátrica. De um lado, enfim, temos o conforto das explicações que emanam de um mundo que não se vê – e que talvez não exista –, de outro, a relação de causa e efeito entre princípio ativo e neutralização da doença.
Seguindo, podemos fazer uma rápida passagem pela ideia de que toda forma de existência merece igual respeito e está em pé de igualdade com a vida humana. Na verdade, não, as diferentes variedades de vida não estão em pé de igualdade. Os fungos, bactérias, protozoários, vermes e inúmeros outros seres sequer são considerados nesse debate, pois não conseguem se manifestar de modo algum, definitivamente não possuem consciência, não sentem dor e, desse modo, tanto faz se os eliminamos com medicamentos ou os utilizamos para fazer queijos. Os ratos, pombos e vetores de doenças diversas, embora sejam vistos com o mesmo grau de importância que os humanos por parte da militância vegana, são alvo de venenos variados, inclusive para evitar que, como na Idade Média, contribuam para propagação de doenças como a peste bubônica. Boa parte dos medicamentos que utilizamos, disponíveis nas farmácias, passaram por algum tipo de teste em animais – roedores, cães ou macacos. Não se trata de dizer que seja aceitável torturar beagles para testar cosméticos ou matar roedores às centenas para descobrir formas de impedir a calvície. Mas de realizar experimentos em espécies que consideramos menos importantes que os seres humanos para que estes últimos possam se curar. Ainda que se queira recusar tal possibilidade radicalmente, ainda que se deixe a casa infestada de baratas, ao ser levado a um hospital, você passa a ser atendido por um complexo de profissionais, processos terapêuticos e equipamentos que só existem porque toneladas de cadáveres de animais assim o permitiram. Nós testamos em animais porque consideramos que a nossa consciência nos faz mais importantes que eles: nós sabemos que estamos vivos, os camundongos, não.
Vale reforçar que isso não nos obriga ao sadismo ou uso indiscriminado de vivissecção. Isso não significa que devemos fazer todo tipo de experimento com animais, mesmo que o propósito seja defensável. Trata-se de dizer, isto sim, que o espantalho especista é uma falácia, já que a simples permanência humana na Terra, dada sua complexidade e amplitude, é uma afirmação inequívoca de que consideramos nossos interesses como mais relevantes e, portanto, somos mais importantes que as demais espécies. A completa eliminação do que se convencionou chamar especismo dependeria do desaparecimento dos seres humanos – ou talvez seja apenas o caso de reconhecer, enfim, que hierarquizamos diferentes formas de vida.
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Em tempo, ainda quanto a problemas de caráter epistemológico, cabe dedicar algumas palavras aos colegas de campo ideológico que alegam certa falta de “relevância estatística” no tipo de problema que este texto aborda. Não teríamos radicais do reacionarismo esquerdista em número suficiente para justificar preocupações com problemas que incluem a transfobia, o cancelamento, as reabilitações históricas esdrúxulas e assim por diante. Pois bem, permitam-me utilizar alguns materiais de minhas aulas de metodologia científica nas linhas a seguir.
Richard Rudner, em seu Filosofia de la Ciencia Social (1973), define o conceito de teoria como um conjunto de afirmações sistematicamente relacionadas, que incluem algumas generalizações do tipo de uma lei e que é empiricamente testável (p. 30). O mesmo autor irá ressaltar que o trabalho científico não se contenta em colecionar fragmentos estanques de informação. Ao contrário: a ciência tem como objetivo a articulação do conhecimento, uma explicação ordenada do universo (id.). Importante destacar, portanto, o caráter de sistematicidade do trabalho científico – algo que o diferencia radicalmente do senso comum, que se contenta com afirmações esparsas e vazias de reflexão crítica. É esta organização que permite à ciência explicar e predizer, suas duas funções essenciais. Rudner afirma que é um ideal da ciência conectar, para fazer encaixar em relações lógicas os conceitos e afirmações que incorporam todo o conhecimento que foi adquirido (id., p. 76).
Acho importante recorrer à definição do conceito de teoria desse autor pelo fato deste destacar os pressupostos de sistematicidade e articulação lógica na produção de conhecimento científico. Conquanto ache um tanto redutor – e positivista – afirmar que teorias devam necessariamente ter o caráter de leis, ainda mais nas Ciências Humanas, muito dessa reflexão se aproveita para uma análise como esta. Assim, vale enfatizar o caráter preditivo da ciência. Em certas condições, com a reunião de certos elementos físicos e sociais, podemos esperar um determinado tipo de resultado – que, ou irá ocorrer sempre, ou tem grande probabilidade de se concretizar. A experiência histórica nos mostra que podemos ter problemas relevantes a partir da junção de intolerância, pânico moral e formação de coletivos para discriminação de grupos sociais já subalternizados.
Retomando a discussão sobre a população trans, a produção de imagens sobre uma libido excessiva e descontrole moral foi um recurso muito utilizado, por exemplo, para reduzir a população afro-americana masculina do Sul dos EUA a algo como um ajuntado de homens ensandecidos e sedentos por sexo. Essa narrativa se articulava aos preconceitos mobilizadores da população branca sulista contrária à integração e ao movimento de direitos civis, que ganhou corpo nos anos 1950-60. Isso vai aparecer inclusive em marcos da cultura daquele país, como no romance de Harper Lee To kill a mocking bird (1960, título no Brasil: O sol é para todos) – que posteriormente servirá de base para o filme com mesmo nome. Cabe pensar, por conseguinte, que existe uma boa chance de que a classificação de grupos sociais como atavicamente “degenerados”, hipersexualizados e ameaçadores pode resultar em um risco para seus integrantes, quanto à possibilidade de um bom convívio social. Nós já vimos isso ocorrer. O fato de que esse mecanismo seja recuperado contemporaneamente, ainda que por grupos radicalizados e não tão amplos em termos numéricos não é, de modo algum, argumento suficiente para afirmar que podemos cuidar desse problema em outro momento, pois teríamos demandas mais urgentes. Ora, chama a atenção que em 2023 não cause o mais amplo escândalo e nojo coletivo que certos grupos sequestrem a bandeira do feminismo para realizar associações entre mulheres trans e pedofilia, infiltração patriarcal, violência contra “verdadeiras mulheres” e outros absurdos. Isso, enfim, mostra duas coisas. Primeiro, a debilidade da reflexão ética que, sob o manto de alguma suposta estatística, não percebe o tamanho da violência que se realiza em território pretensamente progressista. Segundo, trata-se de má utilização da ciência, em seu caráter preditivo. Isso já aconteceu, sabemos das consequências, sabemos que começa com pequenas células e que depois se alastra, em uma metástase de ódio.
3. Confusão entre público, privado e pessoal
Quando Karl Marx fala da revogação da propriedade privada, ele se refere a dois tipos de patrimônio: (1) os meios de produção (fábricas, linhas de montagem, máquinas, insumos etc.) e (2) os bens que se acumulam de forma excessiva nas mãos de poucos – nesse sentido, inclusive, ele irá falar sobre a abolição do direito de herança, no Manifesto Comunista (1848). O pensador não fala, em tempo algum, sobre a necessidade de expropriação de bens pessoais. Em outras palavras, não se trata de investir contra a casa de uma família, seu carro, a escova de dentes, a escrivaninha e a cadeira gamer. Ele está preocupado com a propriedade privada dos meios de produção e a acumulação que gera desigualdades e desequilíbrios sociais. A propriedade de caráter pessoal, nesses termos, não seria o “alvo” de uma eventual revolução socialista.
Neste tópico, no entanto, não vamos discutir a formulação de projetos revolucionários. O que acredito ser importante, para os propósitos deste texto, é recuperar a distinção entre público, privado e pessoal. Tomemos a delimitação conceitual acima como uma ilustração do que se pretende analisar. Quando determinados grupos militantes afirmam que “o pessoal é político”, como palavra de ordem, acabam por apagar fronteiras da maior importância para um debate público saudável combinado à preservação da autonomia dos indivíduos em seus espaços de recolhimento. Que o direito à privacidade já tenha sido utilizado como forma de evitar o combate à violência doméstica, não há dúvidas. Ditos populares como “em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher” têm como propósito impedir que violências sejam denunciadas e agressores punidos. O mesmo vale para a violência contra crianças, idosos, pessoas com deficiências, entre outros grupos que, no espaço de uma residência, em um ambiente privado, são submetidos à agressão física, psicológica e simbólica. Em todos essas situações, temos problemas sociais que adentram as casas, e que transitam da arena pública ao espaço privado e merecem denúncia.
Entretanto, é preciso considerar que nem toda relação social desenvolvida longe dos olhos da arena pública é o resultado de uma violência ou imposição. Como bem diria Max Weber (1864-1920), as esferas da vida social, embora não totalmente independentes, conservam certa autonomia. Esse elemento de autonomia social fica prejudicado sempre que se compromete a liberdade dos indivíduos que circulam por tais esferas. Aliás, como compreender esse arranjo, quando estamos diante de situações em que alguém faz algo de forma livre e espontânea, para atender a um desejo? Faço a mesma pergunta, por outro caminho: o desejo dos corpos deve se submeter a demandas de caráter militante?
Em termos práticos, seguindo a cartilha radfem, a sociedade é estruturalmente machista, mulheres sofrem a violência da misoginia cotidianamente e, por isso, a realização de práticas sadomasoquistas, longe da vista do público, ainda que de forma sã, segura e consensual seria, ainda assim, uma forma de contribuir com o patriarcado. O lesbianismo político, por sua vez, seria interessante como forma de negar o acesso dos homens ao corpo das mulheres – no caso, em geral, mulheres cisgênero heterossexuais. Mas esse é material adequado para construção de militância? Até onde me é dado saber e a psicologia tenta compreender, a formação da libido é da competência de autarquias mentais que pouco se importam com o programa político de quem quer que seja. No espaço da realização pessoal, entre indivíduos capazes de consentir, sem violência que não tenha sido autorizada, esse tipo de marcador político não deveria entrar em jogo. Trata-se de algo que lembra muito mais um controle moralizante sobre os indivíduos que qualquer outra coisa: a pretexto de defender corpos sistematicamente violentados, devemos converter espaços de fruição e gozo em cenário de patrulhamento político-ideológico. Ademais, para grupos que parecem tão dispostos a combater a medicalização e a patologização de tudo, soa estranho classificar o desejo alheio como doentio pelo fato de ele não se adequar a determinadas leituras políticas e morais da realidade.
Cabe dizer, enfim, que nem tudo que diz respeito ao pessoal é tema pertinente para debate na esfera pública. Todas as pessoas têm direito a um espaço de usufruto do anonimato, em que possam saciar seus desejos longe dos olhos da sociedade, do Estado e da militância. Além disso, no uso de sua autonomia, as pessoas também têm o direito de utilizar seus corpos como melhor lhes aprouver, ainda que, inicialmente, isso pareça a violação de algum tipo de pacto por pautas coletivas. Chama a atenção que, em defesa da liberdade das mulheres, tanto se fale sobre a necessidade de cobrir seus corpos. Como Marjane Satrapi descreve em Persépolis (2007), certos grupos se apropriam da fé islâmica, em uma interpretação assaz machista, para afirmar que o véu seria de uso obrigatório e representaria a libertação das mulheres, na medida em que esse pedaço de pano as livraria dos olhares lascivos dos homens. A militância radfem que, muitas vezes, se vê ao lado de representantes da extrema-direita reacionária contra a causa trans, já pode assumir também essa orientação própria de grupos que usam a religião para fins fundamentalistas. A mulher não deve sucumbir a prazeres transgressores e precisa cobrir o corpo o mais possível – para se libertar, vejam só.
Quando falamos do pensamento progressista, estamos em busca de mais liberdade? Estamos a tratar de maior autonomia e menos amarras? Ou a ideia é dar razão às leituras intelectualmente desonestas que afirmam o risco do mundo se converter em uma massa de indivíduos subordinados ao que seria “o correto”? Quem dita o correto, quem estabelece o que ele vem a ser? O propósito original não seria o de conseguir conciliar diferentes tipos de liberdade, garantindo que mais ninguém fosse vítima da privação material, violência de gênero, racismo, opressão religiosa etc.? Em que momento ficou decidido que isso não se relaciona com a necessidade de preservação de uma dimensão para autonomia pessoal? A esquerda reacionária politiza o desejo e o faz da forma mais moralista possível, absolutamente controladora. Essa atitude coloca tudo que não atende ao padrão em categorias que remetem à patologia ou crime. Antes exclusividade da fé, que não respeitava a dimensão pessoal da existência, tais grupos de militância assumiram a responsabilidade por dizer como as pessoas deveriam se sentir. Qual homem ou mulher são aceitáveis, qual a cor de pele, qual partido político é aceitável para que nos relacionemos afetivamente. Isso lembra a infância da minha militância, quando os namoros deviam ser endogâmicos, restritos aos nossos clãs políticos.
O público é político e o privado, como extensão do público, também é político. O pessoal, como espaço de autonomia individual, é o refúgio da subjetividade – e da liberdade.
3.1. Público, privado e pessoal à luz das dinâmicas de cancelamento
Um possível desdobramento das confusões entre público, privado e pessoal diz respeito a um fenômeno/conceito dos mais alinhados ao nosso tempo histórico: a cultura do cancelamento. Recorrendo, mais uma vez, aos materiais que utilizo em aula, creio ser importante definir tal prática.
Em versão eletrônica, o fenômeno social do cancelamento é relativamente recente – pois está conectado ao crescimento e dinâmica das redes sociais. De forma bastante didática/escolar, uma pessoa é cancelada seguindo um determinado roteiro. Inicialmente, ocorre um fenômeno detonador do processo – uma atitude polêmica, comportamento preconceituoso, situação de intolerância, gafe –, que a pessoa não consegue neutralizar e gera descontentamento. Esse gesto tem uma repercussão “viral”, ou seja, é replicado rapidamente pela internet, com destaque às redes sociais. A reação do público é de crescente e ativa reprovação, sendo que esta ganha volume e agressividade em uma progressão geométrica, em um desdobramento totalmente fora do controle da pessoa que está sendo cancelada. Caso tente explicar seu ponto de vista ou justificar o ato detonador, o/a acusado/a não tem direito à voz – suas tentativas são abafadas pelos descontentes. Eventuais defensores/as são acusados/as de “passar pano” – tolerar comportamentos reprováveis por conta de uma relação de amizade ou simpatia para com o alvo desse processo. Finalmente, o cancelamento é concretizado: tal qual uma vítima de linchamento, ocorre um violento processo de silenciamento – muitas vezes, permanente. O nome da pessoa cancelada sequer pode ser citado sem causar algum tipo de constrangimento. Vale reforçar que o processo descrito trata do cancelamento conforme este se desenvolve na internet. Exemplos anteriores e marcantes de tal prática estão presentes em nossa história. Esse foi o caso do cantor Wilson Simonal (1938-2000), boicotado pela cena artística no auge do sucesso, por uma situação mal explicada de envolvimento com a ditadura civil-militar brasileira. Já o cineasta Woody Allen passa por um longo processo de cancelamento, que se iniciou em 1992, após acusação de abuso sexual por parte de uma de suas filhas. Ainda que extensas investigações não tenham comprovado as acusações, Allen sofre ataques constantes à sua reputação. Como se nota, o cancelamento promove a inversão do ônus da prova: cabe à pessoa acusada provar sua inocência, ainda que a pretensa imputação criminal seja completamente desprovida de evidências e, em muitos casos, beirando o ridículo. Na medida em que esse processo contribui para colocar em marcha ódios difusos contra uma vítima qualquer – sempre bom lembrar que Simonal era negro e Allen é judeu –, provar a própria inocência, ainda que cabalmente, pode não ser suficiente.
Não se trata de dizer, por óbvio, que a preocupação destes escritos seja com o caso do influenciador digital flagrado dizendo barbaridades de caráter machista ou do apresentador banido por defender a validade de um “partido nazista” em terras brasileiras. Também não se trata de lamentar o cancelamento do sujeito que promove intolerância de forma recorrente e sistemática, ao ponto de dizer algo capaz de assustar até sua claque habitual. Mas de perceber que há vários casos em que não há uma “culpa” evidente e que as antipatias pessoais se juntam para promover o linchamento. Aliás, talvez seja particularmente revelador o fato de que o linchamento é um crime coletivo, operado em espaço público, socialmente motivado, mas concretizado por violências que se efetivam individualmente.
As alegações de uma pessoa sobre o que ocorria em um relacionamento são, por si, suficientes? Quando não estamos diante de situações “óbvias” – se é que algo assim existe – não se torna particularmente perigoso tomar partido? Retomando as distinções entre público, privado e pessoal, não há relacionamentos que de algum modo desandam, com pessoas que não mais se amam, eventualmente se confrontam, e que nem por isso ocorre algum tipo de violência de caráter premeditado? De forma mais clara: muitas vezes, palavras amargas podem ser ditas em um relacionamento, de forma pontual, sem que isso seja parte de um conjunto de agressões tipificado no Código Penal. Esses desencontros afetivos devem mesmo ser alvo de escrutínio por parte do público? Não há uma dimensão pessoal aí, que não merece esse tipo de olhar de curiosidade mórbida?
Isso nos leva, finalmente, à determinação da culpa a partir da alegação de uma suposta vítima. Antes de avançar neste ponto, retomando o que foi dito no editorial, não se ignora que os casos de violência doméstica sejam em números absurdos, nem que o feminicídio seja uma chaga de proporções mundiais. O que se deseja indagar, nem que seja em benefício declarado das (raras) exceções, é o seguinte: se a palavra da alegada vítima é suficiente, qual a necessidade de um poder judiciário? De códigos, cortes, promotores, advogados, juízes e afins? Qual a necessidade de um processo de investigação? Ainda que alguém seja flagrantemente culpado, isso não anula a necessidade de esclarecimento das circunstâncias, atribuição de responsabilidades e determinação de penas. Em um contexto de normalização do cancelamento, contudo, parece algo bastante razoável pular todas essas etapas e afirmar, em uma atitude aparentemente empática, que sim, fulano/a é culpado/a e quem se dispõe a ponderar a respeito deve assumir que está a “passar pano”.
Sobre isso, podemos fazer dois comentários. Primeiro, embora sempre esquecidas, há uma miríade de condenações completamente injustas ao longo da história. O caso Escola Base (1994) é um bom exemplo de catástrofe motivada pela sanha acusatória. Como ignorar supostas violências cometidas contra crianças indefesas em uma escola, perpetradas por adultos imorais? O problema desse caso é que os proprietários da escola, mais uma professora e seu marido foram todos acusados injustamente, numa trama sensacionalista envolvendo mídia, clamor popular e investigações a toque de caixa. Pessoas inocentes foram acusadas por crimes que não cometeram e suas vidas foram arrasadas para sempre. Além desse, podemos listar os casos de condenados nos corredores da morte, nos Estados Unidos, que, por algum tipo de revisão processual, são inocentados às vésperas de uma execução. Ou os casos, ainda, em que não havia uma condenação à morte, mas em que a pessoa passou décadas encarcerada por algo que não fez. A esquerda reacionária é punitivista. Em segundo lugar, é preciso notar que a palavra da vítima já é ouvida regularmente e, em casos específicos, é mais que suficiente para punição do/a culpado/a. Quando um jovem negro e periférico é acusado de algo; quando uma empregada doméstica é acusada de furto; quando uma travesti é considerada parte sem razão em uma discussão; quando o supermercado acha que pode revistar algum consumidor pois tem certeza de que ele afanou algum produto; em todos esses casos, a palavra de quem acusa é suficiente. A palavra de um marido insatisfeito era suficiente para mandar a esposa a um hospício, por exemplo. A acusação como evidência, processo e certeza de culpa é algo que, historicamente, se volta contra o oprimido.
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Para finalizar esse ponto, gostaria de fazer um pequeno complemento à definição de cancelamento utilizada. Essa ferramenta para punição parece ter se sofisticado. Em algumas situações, já se trabalha com o cancelamento seletivo. Não há muito sentido em tentar cancelar uma pessoa que não tem grande visibilidade midiática ou elevado número de seguidores em redes sociais. A menos que se esteja a apostar em alguma assertiva fulminante – a pedofilia é o espantalho de nossa quadra histórica –, não parece que um indivíduo dotado de poucas conexões sociais vá se preocupar com a execração pública. No entanto, é possível atingi-lo em uma dinâmica de menor intensidade, que tenha por alvo suas relações mais caras. Suponhamos que seja um militante: basta falar com suas lideranças e colegas, minar sua credibilidade política. Para um acadêmico, algumas fofocas em seu departamento ou área de conhecimento bastam. Para todos que cultivam alguma misantropia, basta alcançar a meia dúzia de amigos e os dois parentes com os quais se toma café com bolinhos. Pronto, independente de culpa efetiva ou justiça em suas afirmações, você fez o suficiente para comprometer gravemente uma existência.
4. Dificuldades no manejo de análises históricas: reabilitações e anacronismos
A esquerda reacionária, no afã de promover pautas de dignidade inquestionável – melhor distribuição de renda, reforma agrária, luta contra o racismo e o machismo etc. –, cria ferramentas de militância que, como já destacado, podem fugir muito rapidamente a algum tipo de freio ético. O cancelamento é um instrumento autoritário, cruel e que se presta a usos por parte de todo o espectro político-ideológico. Você pode cancelar, de forma direta ou indireta, seja de direita, seja de esquerda. O caso do influenciador digital PC Siqueira1, por exemplo, é icônico. Acusado de pedofilia, teve a vida devassada pela Polícia Civil de São Paulo. Nada, absolutamente nada foi encontrado que confirmasse tal acusação. O que se viu foi um banquete de atrocidades em que esquerda e direita, de forma mais ou menos despudorada, se refestelaram. Às acusações dos reacionários de sempre, somou-se a covardia dos pretensos amigos. Em um cenário como esse, vale indagar: para que serve o Estado democrático de direito e as prerrogativas de um cidadão? A presunção e a confirmação da inocência de nada adiantam? Quem paga uma vida destruída?
Ainda falando de cancelamento, a esquerda reacionária possui uma leitura histórica que é duplamente problemática: ora disposta a reabilitar, ora empolgada para acusar – nos dois cenários, sua atuação se apoia em anacronismos. Para que possamos deixar mais claro o que se quer demonstrar, vale perguntar qual o limite entre o que é criticável/atacável e o que não é, dado o contexto histórico em que uma ação foi realizada. Quando Martin Heidegger (1889-1976) se associou ao nazismo, já havia clareza dos propósitos antijudaicos e totalitários dessa construção político-ideológica. No caso de Carl Schmitt (1888-1895), o jurista do nazismo, isso é ainda mais verdadeiro. Por outro lado, por mais desagradável que isso possa soar, há um grande número de filósofos e pensadores das mais diversas áreas que se alinharam a valores hoje considerados problemáticos, mas que eram razoáveis em seus respectivos tempos históricos. Assim, a depender da intensidade com que ocorreu esse alinhamento a valores discutíveis, embora historicamente aceitáveis, é preciso um olhar cuidadoso acerca das intencionalidades. Uma atuação francamente discriminatória e odienta é, até certo ponto, diferente de inercialmente se alinhar aos preconceitos de uma época. Ou, em outras palavras, tomando o estatuto da escravidão como exemplo: (1) faz todo sentido realizar a crítica de autores que relativizavam o horror dos processos escravistas ou defendiam a escravidão; (2) isso não significa que todos devem ser sumariamente descartados, postumamente; e (3) nem que se deva olhar com qualquer complacência para aqueles que, além de relativizar, se serviram e promoveram tal instituição. Assim, ao mesmo tempo em que não faz sentido queimar os livros de John Locke (1632-1704) na fogueira, é preciso notar que sua defesa da escravização de seres humanos já era problemática em seu tempo histórico. Temos aqui, enfim, algo que ofende o senso militante da esquerda reacionária: uma perplexidade ética insuperável, que inviabiliza uma fórmula com alguma solução ideal para o tema. Esse conflito tende a permanecer enquanto a obra de autores pessoalmente desprezíveis continuar clássica/relevante. De forma mais prática, à medida em que se torna esteticamente superado e pouco agradável à leitura, Monteiro Lobato (1882-1948) se torna um problema mais fácil de resolver: creio que estamos próximos do tempo histórico em que, apesar da simpatia de Emília, ficará evidente que ela não justifica o evidente racismo de várias passagens desse autor. Infelizmente, creio que não teremos solução tão prática para lidar com as contradições de David Hume (1711-1776) e suas deploráveis posições sobre raça e escravismo.
Cuidados metodológicos à parte, se levarmos em conta que fotografias, revistas, jornais, enciclopédias e afins cumpriam um papel de comunicação e integração social numa era anterior às “redes”, podemos considerar Josef Stalin um verdadeiro pioneiro. Mais que isso até, um visionário. O cancelamento tal qual como concebido no primeiro quarto do século XXI ainda tem caráter predominantemente simbólico, não obstante o fato de que tal simbolismo extrapola as redes sociais e se desdobra no mundo físico. Ao reescrever a história da Revolução Russa de outubro de 1917, o guia genial dos povos e grande timoneiro do mundo socialista realizou a dupla proeza de apagar pessoas das mídias disponíveis e eliminá-las fisicamente. Célebres são as fotos em que Stalin começa com um determinado número de companheiros e, após vários retoques, surge solitário. Tais indivíduos desapareciam dos registros oficiais antes ou depois de sumirem da face da Terra. Toda a velha guarda revolucionária, todos os grandes bolcheviques, grande parte do alto escalão do Exército Vermelho e até anônimos que, por um motivo ou outro, se tornaram alvo de seus Grandes Expurgos (1936-1938), terminaram executados. Apenas para ficar em alguns nomes mais famosos, podemos iniciar com os parceiros da Troika pós-Lênin: Grigory Zinoviev e Lev Kamenev. Da chamada “oposição de esquerda” foram eliminados Leon Trótsky, Alexander Beloborodov, Mikhail Boguslavsky, Yakov Drobnis, Sergei Mrachkovsky, Nikolai Muralov, Valerian Obolensky, Georgy Oppokov, Yevgeni Preobrazhensky, Georgy Pyatakov, Karl Radek, Timofei Sapronov, Ivar Smilga, Ivan Nikitich Smirnov, Vladimir Smirnov, Lev Sosnovsky. Da “oposição de direita”, temos Nikolai Bukharin, Pavel Bulanov, Mikhail Alexandrovich Chernov, Grigori Grinko, Sergei Bessonov, Akmal Ikramov, Vladimir Ivanov, Ignaty Kazakov, Fayzulla Khodzhayev, Pyotr Kryuchkov, Lev Levin, Venyamin Maximov-Dikovsky, Dmitry Pletnyov, Alexei Rykov, Christian Rakovsky, Arkady Rosengolts, Vasily Sharangovich, Genrikh Yagoda, Isaac Zelensky, Prokopy Zubarev. Para listagem dos dois blocos de oposição, levou-se em conta a classificação histórica mais utilizada na nomeação dos opositores reais ou imaginários de Stalin. Tal detalhe é importante na medida em que um maníaco como Yagoda, que liderou a NKVD2, dificilmente teria capacidade cognitiva de formular algo que fizesse sentido, em termos ideológicos – logo, defini-lo como de esquerda ou direita beira a impossibilidade prática, o que acontece com outros nomes dessa lista. E podemos citar, por fim, nomes de vulto do exército, alguns deles verdadeiros gênios da teoria militar que teriam sido muito úteis na luta contra o nazismo, não tivessem sido executados: Vasily Blyukher, Robert Eideman, Boris Feldman, August Kork, Vitaly Primakov, Vitovt Putna, Mikhail Tukhachevsky, Ieronim Uborevich, Iona Yakir, Alexander Yegorov.
Caso tudo isso ainda não seja suficiente, basta lembrar que o sucessor de Lênin foi o empregador de Lavrenti Beria (1899-1953), um torturador profissional alçado a chefe das forças de segurança da URSS3. Stalin também foi um líder militar claramente inepto, que se apropriou do sangue dos soldados russos que venceram o nazismo e se autoproclamou o líder de uma vitória que não lhe pertencia. Não faz sentido que exista qualquer tipo de esforço para relativizar as ações de Stalin. O que foi feito na União Soviética sob seu comando, mesmo em seu tempo histórico, é completamente reprovável. Que em 2023 uma parcela da esquerda não se dê conta de que há registros historiográficos muito confiáveis, para além da dúvida razoável, que atestam o caráter totalitário do stalinismo, chega a soar ridículo. Mas parece que é preciso ir além, buscar reabilitar e, por vezes, converter em herói um indivíduo com tal folha corrida. A multiplicidade de movimentos, grupos e grupelhos que tentam afirmar alguma benignidade histórica em Stalin parece crescer à medida que recrudesce o discurso da extrema-direita criptofascista. Caso tudo isso pudesse ser definido como mero folclore da esquerda, não seriam necessárias maiores preocupações. Mas o combate à radicalização com o uso do autoritarismo, a criação de uma contraparte em que nossos demônios aparecem dotados de algum propósito de longo prazo muito amável e gentil, ora, isso contrasta com dados da realidade de maneira flagrante. Por que insistir na defesa dessas teses? O que se ganha com isso, a não ser a perda da credibilidade? Se a ideia é afirmar que avanço econômico e crescimento do Estado justificam o autoritarismo, logo mais vão reabilitar o Costa e Silva, o Médici e o Geisel.
Por outro lado, não falta disposição em cancelar postumamente. Da Antiguidade Clássica Grega ao Iluminismo, é difícil elencar uma lista mínima de pensadores que não estivessem comprometidos com machismo, misoginia, racismo, criminalização do sofrimento mental, punitivismos dos mais diversos tipos e assim por diante. Fora questões biográficas problemáticas – infidelidades, agressões e variados desvios de caráter. Aí cabe voltar ao questionamento do início deste tópico e verificar se estamos falando de algo que já era ofensivo no tempo histórico em que ocorreu ou se há um alinhamento entre comportamento problemático e os valores cultuados à época. Isso não significa esquecer, perdoar ou relativizar. O sofrimento que tais comportamentos provocaram é real, as vítimas existiram. Mas, nessas situações, faz sentido a reflexão e a análise sobre o quanto de uma obra sobrevive à biografia. Muitas vezes, faz sentido que tudo sobreviva.
5. O que virá depois da democracia liberal?
Importante reafirmar alguns dos princípios desta análise – que é crítica, como gostaria Weber, mas muito menos radical do que gostaria Marx. O que se deseja perguntar é como a confusão epistemológica e política da esquerda reacionária pôde se converter em bússola do campo progressista. Tolerância religiosa, tolerância política, igualdade jurídica, livre associação, construção de uma arena pública de debates, poderes independentes e mutuamente fiscalizados, liberalização de costumes, valores democráticos em sentido amplo… Tudo isso faz parte do corolário que define uma democracia liberal. Em todo canto, contudo, tais valores estão sob ataque. Pela acumulação capitalista, que abocanha pedaços de todos esses elementos, conforme a sanha de momento – afinal, é impossível dissociar poder político e poder econômico. Esses valores também são atacados pelo fundamentalismo religioso – no Brasil, algo que transita entre o medievalismo cristão e a teologia da prosperidade. A livre manifestação, por sua vez, padece com o comprometimento da arena pública, açambarcada pelo avanço das redes sociais e pobreza de discurso. Todos esses valores e instituições liberais experimentam a corrosão de um tempo marcado pela irracionalidade e falta de clareza político-ideológica. E, além do que foi citado, temos a fragmentação partidária; o fisiologismo do parlamento; o rebaixamento programático; a criação de um pensamento reacionário que vai da direita fascista à esquerda autoritária; os problemas da oscilação pendular entre identitarismo radical e marxismo dogmático; o desprezo dos “desenvolvimentistas” pelo meio ambiente e comunidades indígenas; etc.
Que fique claro que este é o texto de uma pessoa sem qualquer apreço pelos projetos políticos de direita, especialmente os mais conservadores – embora perceba a relevância desse pensamento, ao longo da história. Também não tenho qualquer respeito pela direita fascista. O propósito desta reflexão é, antes, o de alertar para o tipo de pensamento reacionário que tem contaminado o campo progressista. Não faz qualquer sentido lutar contra os grandes conglomerados do capital ou o obscurantismo mais tosco ao lado de pessoas que se dedicam ao ataque à diversidade ou que acham razoável a inclusão do reiki no serviço público de saúde. Não faz qualquer sentido se compreender do mesmo lado de quem se afirma feminista e endossa o discurso transfóbico de um deputado federal. Não faz sentido, finalmente, construir um programa de retrocesso que tem como elemento de esquerda somente a filiação formal.
Até onde me recordo, dos meus tempos de pós-adolescência universitária, a ideia era de superar nosso atual modelo de organização social. Garantir que as pessoas fossem mais livres, tanto econômica quanto socialmente. Que, em algum momento, uma série de revoluções nos atirasse adiante, com a desconstrução do atual modelo de propriedade; com a superação da desigualdade social; com o fim das opressões baseadas em crença, ideário político, orientação sexual ou raça; com um modo de produção capaz de criar, simultaneamente, mais abundância e mais sentido. Em alguma circunstância, no meio desse caminho, a incompetência em integrar as chamadas pautas identitárias à superação revolucionária do atual modo de produção resultou na formulação de que o real problema seria a democracia liberal. Sempre achei que a democracia liberal, enquanto patrimônio político da humanidade, deveria ser um ponto de partida para algo muito mais avançado e emancipador. Não parece que o conjunto da militância progressista concorde comigo.
Alguém poderia objetar – e estaria coberto/a de razão –, que soa ingênua uma pauta liberal clássica. Falar em tolerância; liberdade de associação, expressão e crença; criticar o acúmulo excessivo de capital… Como fazê-lo, se o capitalismo alcançou tal grau de concentração e ausência ética que se considera razoável a existência de Elon Musk, um Cecil Rhodes (1853-1902) pós-moderno? Quanto a esse acertado reparo, posso fazer dois comentários. Primeiro, existe a necessidade de um diagnóstico preciso sobre a gravidade da patologia. Não é irrelevante que discursos reacionários encontrem espaço no campo progressista. Se é para acender velas para ícones totalitários e fazer discursos contrários ao que há de mais básico da dignidade humana, creio que é chegada a hora de algumas pessoas perceberem que, como Horst Mahler4 (1936), sempre estiveram do lado errado. A esquerda precisa recuperar esses valores liberais e combater o que há de infiltração ideológica em seu campo, precisa recuperar os elementos que definem uma sociabilidade progressista. Segundo, há que se discutir a colonização neoliberal de nosso espaço. Ora, como se perceber de esquerda e se alinhar radicalmente ao que o neoliberalismo produziu de pior? O que há de pessoas chorando em divã por aí, com a ladainha do que é obrigado/a a fazer pelo capitalismo… Já convivi com gente que jura ser muito esquerdista e que trabalha ou trabalhou em agência de lobby, banco internacional de investimentos, empresa da grande mídia, ONGs com propósitos duvidosos, centrais sindicais e sindicatos ultrapelegos, enfim, nomeie uma barbaridade e vai encontrar um militante obrigado a realizá-la. Choro que, imagino, seja muito amenizado pelo apartamento quitado, carro na garagem, criança em escola bilingue e viagem anual para a França.
O que este texto propõe é uma reflexão para dentro, para o que foi feito da esquerda. Não se trata, obviamente, de análise exaustiva. Mas creio que não se trata, também, de espantalho. Esses valores aos quais me referi podem ser recuperados em nosso pequeníssimo cercadinho. Quanto ao que virá do cenário mais amplo, a possibilidade de propor algo de maior fôlego me parece inviabilizada pelos aparelhos ideológicos corporativos5 que, montados em toneladas de dinheiros, embaraçam qualquer possibilidade de avanço – liberal, socialista ou mesmo conservador, já que acredito vivermos em uma Idade Média digital (e não, não pretendo normalizar gangrena e varíola para agradar a meia dúzia de historiadores que não gostam do Diderot, 1713-1784).
A grande perplexidade derivada dessas conclusões se inscreve no quadro da famosa pergunta leninista: que fazer? Creio que podemos falar dessa recuperação da sociabilidade progressista e da combinação entre autocrítica e reforma nas fileiras da esquerda. Devemos reconhecer, além disso, que temos algum ferramental teórico útil ao diagnóstico. Nossa definição sobre o neoliberalismo, em seus aspectos existenciais, avançou enormemente, desde a época em que afirmávamos se tratar de mero impulso privatizante. O campo das subjetividades, com toda uma nova paleta de compreensão das expressões humanas, traz um duplo desafio: perceber a vastidão de nossa diversidade e a dificuldade de integração desses elementos a percepções políticas mais tradicionais (ou dogmáticas) – talvez só Harvey Milk (1930-1978) tenha entendido toda a potência disso, ao aliar caminhoneiros e comunidade LGBT em um movimento de boicote muito bem-sucedido6. A interseccionalidade é um conceito inescapável, bem como boa parte do instrumental herdado de autores clássicos e contemporâneos. Não surgiu ainda, porém, o Manifesto Comunista (1848) de nosso tempo, ou seja, uma efetiva e mobilizadora síntese para a ação. Talvez a formulação desse receituário, a partir da tecnologia teórica acumulada nas últimas décadas, seja a tarefa desta geração. Ou estaremos condenados a acreditar, infantilmente, que uma imbecilidade como as Jornadas de Junho de 2013, um levante da classe média mais deplorável, foi uma “chance perdida”.
Finalizo com algo que, espero, possa trabalhar em artigo futuro. É preciso olhar a longa duração e o contexto mais amplo. O que se assiste é a união de reacionários de todos os matizes contra os valores do liberalismo e, além disso, a culminação de um longo projeto de oposição aos valores do Iluminismo. Não me espantaria se descobrisse que essa gente quer reabilitar até a peste bubônica.
Post scriptum
Em 30 de maio de 2023, na Câmara dos Deputados, ocorreu a aprovação do texto-base do projeto de lei 490/07, que trata do marco temporal quanto à demarcação de terras indígenas. PT, PSOL, Rede e PCdoB votaram unanimemente contra o projeto. Essa pauta reacionária não é de responsabilidade dos partidos que sustentam o atual governo Lula – em que pese a desorganização legislativa dessa administração, foi orientado voto contrário ao projeto. Em um momento como esse, alguma voz lá no fundo da consciência deve assoviar algo sobre como, nos tempos de bonança, Belo Monte, Jirau, Santo Antônio e todas as minas da Vale pareciam um bom negócio para o país. Lembranças deste ou daquele aceno, abraço ou retrato junto ao agronegócio. Para essa esquerda que ora critico, o desenvolvimentismo sempre rende bons frutos, enquanto espalha canteiros de obras e prostíbulos, Brasil afora.
Notas
[1] Paulo Cezar Goulart Siqueira, 1986, ilustrador, colorista, influenciador digital, apresentador de programas televisivos, entre outras atividades.
[2] Comissariado do Povo de Assuntos Internos, o equivalente ao Ministério do Interior da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Após sucessivas reorganizações, resultaria, em 1954, na KGB, o Comitê de Segurança do Estado.
[3] União das Repúblicas Socialistas Soviéticas.
[4] Advogado, militante político e um dos fundadores do Grupo Baader-Meinhof, também conhecido como Fração do Exército Vermelho, na Alemanha Ocidental, em 1970. Ao longo da vida, Mahler caminhou da extrema-esquerda à extrema-direita e atualmente é um ultranacionalista alemão de contornos neonazistas.
[5] VIEIRA FILHO, Antonio Gracias. Aparelhos ideológicos corporativos. Sociologia da Gestão, 2022. Disponível em: https://sociologiadagestao.com/2022/04/13/aparelhos-ideologicos-corporativos/. Acesso: 23 mai. 2023.
[6] Harvey Bernard Milk foi um militante destacado da causa LGBT, sobretudo na cidade de São Francisco, nos EUA. Ele foi o primeiro político abertamente gay da história do Estado da Califórnia, tendo sido eleito para o Conselho de Supervisores de São Francisco, em 1978 – o equivalente ao cargo de vereador, em uma câmara municipal. O boicote em questão uniu uma improvável aliança entre o maior sindicato de caminhoneiros dos EUA, o Teamsters, a comunidade LGBT de São Francisco, donos de bares e comerciantes árabes e chineses. Em 1973, todos esses grupos promoveram um boicote ao consumo de cervejas de distribuidores que se recusavam a assinar acordos de trabalho com o Teamsters. Uma das principais marcas afetadas foi a Coors, que desapareceu dos bares da comunidade gay dessa cidade durante o movimento.
Imagem em destaque
O grande Stalin, União Soviética, c. 1940-1945. Autor desconhecido/domínio público. Algumas pessoas acreditam que esse delinquente com manias persecutórias é um grande herói.
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