Planejamento de carreira: fuja do óbvio

O propósito deste texto é o de oferecer uma perspectiva sobre carreiras profissionais que não caia na tentação da mesmice. Ano após ano, temos as mesmas matérias jornalísticas sobre o tema: as profissões do futuro; o que não pode faltar no currículo; a maneira garantida de ficar rica/o com o trabalho; as melhores universidades; etc. Para além da falta de criatividade, fica a impressão de que os autores dessas análises não acertam uma desde o fim dos cursos de datilografia. Justamente por isso, este texto tenta encarar o debate sobre a vida profissional de modo um pouco menos enfadonho.

1. Domine os fundamentos

Coachs de todos os tipos afirmam possuir a solução infalível para o progresso de todos os trabalhadores, em todas as situações possíveis e imagináveis. Basta ter atitude empreendedora, pensamento positivo e comer muitas verduras e legumes. Infelizmente, o problema costuma ser mais complexo.

Você pode estar em uma profissão que não lhe agrada; a gestão da empresa pode ser ineficiente; pode lhe faltar competência para função que está desempenhando; entre outras possibilidades. Para isso, mais que coaching, vale planejar com calma o que se pretende da vida. Qual o melhor emprego? Qual a formação mais adequada? Já considerou a hipótese de ser mais feliz em outra cidade? Também ajuda muito buscar ajuda especializada. Assistência psicológica com pessoas bem formadas – com diploma universitário e atuação comprovada na área – pode ser uma boa solução.

Mas, se é impossível traçar um plano que seja garantia absoluta de sucesso, com certeza se pode criar um cenário de fracasso inescapável. E o que tenho observado com alunas e alunos ao longo dos anos é a falta de domínio dos fundamentos mais elementares para uma boa atuação profissional. Duas habilidades estão em falta, com consequências dramáticas para construção de uma trajetória de realizações. As pessoas não sabem ler e interpretar um texto e nem escrever. Pode parecer absurdo, mas, ano a ano, o sistema educacional brasileiro permite que muitos de seus matriculados ganhem certificados e diplomas sem saber ler e escrever.

Então a primeira recomendação deste texto é: aprenda a ler, interpretar um texto e escrever. Você precisa conseguir entender o que lhe é transmitido – em cartas, e-mails, relatórios e afins – e deve conseguir se expressar nesses mesmos meios. Também ajuda muito manter hábitos de leitura em diferentes níveis: reportagens, livros técnicos, literatura etc. Chega a ser desesperador ver que pessoas gastam milhares de reais em cursos e palestras motivacionais ao invés de realizar uma formação básica em redação.

Caso você esteja se perguntando se esse é um conselho simplório, pergunto: você contrataria uma pessoa que não sabe ler? Em uma futura entrevista de emprego, você se sentiria à vontade para fazer uma redação? Infelizmente, vivemos um tempo em que se acredita na “reprogramação de DNA pelo controle da mente” e não se sabe o que é crase.

2. O que você quer? O que vai lhe fazer feliz?

Das mentiras que mamãe conta e geram consequências para toda vida, existe uma que é bem famosa no mundo do trabalho: primeiro faça algo para ganhar dinheiro, depois faça algo que você gosta. Ao seguir esse conselho, você começa a pavimentar a não muito longa estrada que termina na frustração. Um exercício que costumo fazer em sala de aula é solicitar aos alunos para que levantem a mão aqueles que trabalham exatamente com o que gostam. O número costuma ser pífio. Em seguida, peço que se manifestem todos que possuem um emprego pela necessidade de sobrevivência ou porque estão ganhando dinheiro para depois fazer o que gostam. Nesse instante, quase todos levantam a mão.

Ora, se você está realizando uma atividade pela urgência de colocar comida na mesa, este item não se aplica – ao menos neste instante. Não obstante, minhas turmas são formadas por muitas pessoas jovens, que possuem um pouco mais de margem de manobra e possibilidade de escolha. Por que fazer uma graduação em Administração se o seu sonho está na Pedagogia? Por que fazer Nutrição se prefere Engenharia Ambiental? Ou por que abrir mão do curso de Filosofia para passar quatro anos estudando Enfermagem? A frustração cria pessoas amarguradas, que dificilmente conseguirão satisfação em uma atividade que não as comove.

Faça aquilo que quer fazer e seja feliz. Essa é a palavra de quem conseguiu abraçar a docência apenas aos 37 e hoje, aos 41, se sente realizado. Em um período de quatro anos, tive mais sucesso com o trabalho que em toda minha vida pregressa.

3. Combine especialização com uma abordagem generalista

A formação continuada é uma necessidade incontornável em um mercado cada vez mais competitivo. Acreditar que uma graduação universitária é suficiente não condiz com os desafios crescentes do universo do trabalho na Brasil. Em nosso país, o cenário é de multiplicação de diplomados, muitos em instituições precárias; reestruturação produtiva e desaparecimento de funções; e uma crise econômica que se arrasta desde 2016. Portanto, após a graduação no ensino superior, não deixe de fazer ao menos uma especialização e alguns cursos de atualização. Isso é o mínimo.

Mas não caia na armadilha da especialização sem fim. O mercado precisa de profissionais com formação generalista. Não basta, por exemplo, ser um bom engenheiro e ignorante das demais questões do planeta. Primeiro, é preciso dominar os fundamentos, como dito no item 1 deste texto. Segundo, ajuda muito ter “fluência” na matemática – pois é, temos engenheiros com dificuldades para resolver uma equação de segundo grau. Terceiro, e que vale para todas as profissões, é preciso saber um pouco de economia, história, literatura, política, entre outros temas de interesse geral.

De certo modo, as pessoas já possuem formação generalista. Via redes sociais e aplicativos de mensagens, existe a certeza de capacitação para discutir tudo: de receitas para cura de micose aos problemas das relações exteriores da China. Infelizmente, esse generalismo genérico, alimentado por fofocas da internet, não serve. Veja, é preciso ler, assistir documentários, fazer cursos de extensão, procurar fontes alternativas e seguras de informação etc. A especialização típica da formação continuada, portanto, precisa ser acompanhada de uma contraparte generalista.

4. Não sucumba à imbecilização

Infelizmente, vivemos um período de modas iconoclastas em que o alvo preferencial parece ser a ciência e o método científico. E, neste contexto, as ciências humanas parecem sofrer de forma mais aguda que as demais.

Como ponto de partida, é preciso evitar os chavões mais óbvios e absurdos. Assim, a Terra não é plana; a física quântica não se aplica ao coaching; a atitude mental positiva não resolve tudo; escolher colega de trabalho consultando mapa astral é ridículo; e jogo de Tarô não serve como ferramenta de planejamento estratégico. Pode parecer que essa lista é puro exagero para chamar a atenção do leitor. Antes fosse. Esse tipo de percepção mágica do mundo tem impregnado os espaços da Administração e Gestão e se convertido em um novo padrão. O terraplanismo vai de brinde nesse pacote, em que a ideia é questionar por questionar – sem qualquer senso crítico.

Numa categoria à parte, também vale evitar as falácias típicas da meritocracia e do empreendedorismo. Não confunda precarização das relações de trabalho, perda de benefícios e extinção de direitos com atitude empreendedora. Criar soluções para necessidades relevantes é empreender; vender água no semáforo sob um sol de 40º pode ser muito digno, mas não se confunde com criar um empreendimento. O mesmo vale para as relações com aplicativos diversos, de entregas e transporte, em que se confunde a ausência de um “patrão” corpóreo com a imagem do “patrão de si mesmo”. O “app” pode ser um chefe muitíssimo exigente e promover uma rotina de assédio moral – a ausência de um corpo humano nessa função não impede o comportamento abusivo.

Infelizmente, a falta de Antropologia, Ciência Política, Educação, Filosofia, Geografia, História, Psicologia e Sociologia nos currículos escolares e universitários contribui para esse estado de imbecilização coletiva. Sem esses conhecimentos, fica inviabilizada a construção das ferramentas necessárias ao senso crítico e capacidade analítica. As pessoas não sabem interpretar a informação do grupo da família por um motivo simples: elas não foram ensinadas. Esse problema é relevante neste texto pois se desdobra no mundo do trabalho. Bons profissionais possuem uma leitura abrangente e informada da realidade, com capacidade de interpretação e seleção de conteúdos.

Finalizo com a seguinte pergunta: você contrataria uma pessoa que não sabe ler ou escrever; faz algo que detesta; entende apenas do assunto em que se especializou; e que jura que a Física quântica serve para mudar o DNA dos colegas?


Imagem destacada: Pixabay via Pexels.com.

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