Ardil-22

O conteúdo que ora ressuscito, o último da sequência de relançamentos por conta das correções de avaliações e trabalhos escolares, já foi publicado em outra plataforma. Para quem acompanha o trabalho deste portal e já se acostumou ao estilo do autor, trata-se de um ponto fora da curva. Por uma questão de credibilidade e equilíbrio, duas qualidades que prezo e procuro cultivar, evito a todo custo recorrer à linguagem panfletária. Mais que isso, não me agrada a moda recente do radicalismo desenfreado: creio que há algo que possamos refletir sobre praticamente qualquer assunto. Logicamente, devemos ser radicais contra o totalitarismo, as ditaduras e o silenciamento, mas, feitas tais ressalvas, acho que o melhor caminho é o da ponderação. O texto a seguir é distinto das abordagens habituais – ou “fora da curva” – pelo contexto e as proposições.

Quanto ao contexto, foi escrito no auge da Pandemia de Covid-19, em um momento em que sentia a sanidade escapar pelos vãos dos dedos. Acho difícil um ser humano com uma hipocondria mais plena e inescapável que a minha, de modo que mal tinha coragem de sair de meu quarto. Perdi a conta dos dias e noites de completo isolamento, em que contabilizava os amigos e conhecidos perdidos para essa terrível moléstia. Em relação às proposições, achei que era importante ser claro quanto ao momento em que vivemos, de profundo mal-estar. Eis um tempo histórico no qual os valores da democracia liberal se encontram em xeque nos mais variados espaços e debates: na loucura reacionária e negacionista, que ameaça as instituições democráticas; no patrulhamento ideológico que se afirma progressista; naqueles que relativizam líderes totalitários e suas atrocidades; etc. Espero que fique evidente que não se trata de recorrer às falsas simetrias, para assumir o papel de vestal da isenção. Mas de dizer que a moderação e a compreensão continuam fundamentais para salvar o que sobrou da herança liberal e iluminista e avançar a partir daí.

Enfim, naqueles dias em que mal dormia e mal conseguia falar, cometi as linhas abaixo. Ao contrário do estilo habitual, trata-se de uma radical e panfletária recusa ao radicalismo.


Ardil-22

Para R. L., com afeto.

Entre as muitas revelações que a pandemia me trouxe, creio que uma das mais pontiagudas diz respeito ao fato de que sou pobre. Naquele sentido material do termo. Embora o Brasil seja pródigo nas definições de pobreza e desigualdade social, acho difícil escapar dessa classificação. Afinal, são R$ 2000,00 por mês, aproximadamente, vivendo na cidade de São Paulo. Para quem não sabe, aqui você entra em uma padaria, dá “bom dia” ao balconista, não leva absolutamente nada e deixa uns R$ 50,00 no caixa. Terra de empreendedores meritocráticos, bandeirantes e faria limers, muita gente se orgulha desses preços escorchantes. Isso posto, se está difícil pagar, a culpa é da sua incompetência.

Durante muito tempo, normalizei minha condição material/existencial por conta da dificuldade de adaptação ao mercado de trabalho. Formado em Ciências Sociais, mestre em Antropologia Social… Experimente procurar uma vaga de “antropólogo especializado em intolerância religiosa” em uma dessas plataformas de emprego: caso consiga encontrar um único anúncio, ganha um doce. Assim, tinha uma vida sem emprego regular, sem dinheiro, sem tênis novo e tudo bem. Você não se sente exatamente pobre, pois se trata de um tipo de exclusão que não lhe permite sequer começar o jogo.

Agora, felizmente, tudo mudou. Já posso me colocar como oficialmente pobre – eu diria fodido, mas gosto de cultivar a imagem de pessoa elegante, proprietária de texto idem. Pobreza, eis a condição de um professor. Trata-se de uma quantidade assombrosa de trabalho, com todo tipo de dificuldade, semana após semana, sem trégua. Ninguém mais pode dizer “mas, Antonio, você não se esforça!” Não só me esforço como topo discutir meritocracia com o pessoal que é puro sucesso corporativo. Tem a aula na sala, à distância, nas minhas páginas na internet e por e-mail. O material didático, eu mesmo faço. Gravo áudio e faço podcast. E aí são R$ 2000,00 por mês – e olha que meu empregador paga valores acima da média do mercado.

Caso você esteja procurando um texto apenas de lamentações, peço que me perdoe, pois, deste ponto em diante, fica um pouco mais complicado.

Vivo em um país em que pessoas negras são vítimas do racismo estrutural cotidianamente, o que inclui todo tipo de violência: policial, institucional, no seio familiar, etc. O racismo é tanto que o atual presidente da Fundação Palmares é um homem negro com uma pauta antinegro (você não leu errado, é isso mesmo). Trata-se de um massacre promovido por uma branquitude predatória. Tão meticulosa, em sua opressão, que é capaz de produzir prateleiras e mais prateleiras de bonecas e heróis brancos – a criança negra que se vire. Algo que já é grotesco chega ao paroxismo quando um sujeito branco, de emissora que relegou atrizes negras à cozinha por décadas, escreve um livro cujo título é Não somos racistas (2006).

Esse mesmo país, que massacra pessoas negras, faz igual com as mulheres. Os índices de violência doméstica, feminicídio, abusos de toda espécie, o que você puder imaginar, são gigantescos no Brasil. As violências são tão comuns e banalizadas que é praticamente impossível encontrar uma mulher que não tenha um relato a oferecer. Desde a primeira infância até a vida adulta são piadas, “cantadas”, passadas de mão, olhares, tapas, socos, estupros, tiros e facadas, em profusão, das favelas aos bairros de ricos. Juntando a população negra às mulheres, a impressão que se tem é de que o país é uma grande máquina de aniquilação.

Mas ainda há mais a exterminar.

Chegamos ao extremo radicalíssimo hiperbólico do sadismo social, quando tratamos das populações trans. Mulheres e homens transexuais, transgêneros e travestis que aqui vivem, sabem de modo incontornável o que é o inferno – em definição nada romântica. Trata-se de população à qual se nega o direito a um nome, aos pronomes corretos, ao trabalho e ao espaço público. Recordo-me que certa vez fiquei perplexo, pelo realismo, quando me deparei com um cartaz de campanha de direitos humanos que dizia algo como “já é hora de ver essas pessoas não só no salão ou na pista”. Nessa peça publicitária havia a foto de uma travesti. Acho difícil maior poder de síntese. Na esmagadora maioria das vezes, são pessoas que têm seus horizontes restritos a um salão de beleza ou espaços de prostituição. Que são proibidas de caminhar nas ruas à luz do sol. E que se encontram permanentemente sujeitas ao linchamento. Este é um país em que se considera um “lazer” aceitável, para os jovens filhos da classe média, arremessar pedras contra travestis. Isso mesmo: para algumas pessoas, isso é um passatempo, um divertimento.

Resumindo, se você é negro, mulher ou trans, no Brasil, sua situação é bem difícil. Em alguns casos, impossível. E, sendo este um texto de blog, não vou me aprofundar na lista – que incluiria nordestinos, umbandistas, indígenas, entre outros – dos grupos que são alvos do nosso ódio.

O Ardil-22: funcionamento e consequências

Eu sou apenas um pobre fodido, que mora mal, trabalha mal, pega o trem lotado e está apavorado com a Covid-19. De fato, tenho inúmeros privilégios em relação a todos esses grupos, já que sou homem, branco, hétero, cis. Tomei muito menos enquadros da polícia, não sofri abusos, posso caminhar nas ruas e quando queria comprar um brinquedo, um “hominho”, existia tal opção – a de um “hominho macho branco”. Portanto, não posso me comparar a qualquer um desses grupos, pois sempre tive muitas vantagens.

Procurei lidar com tais benefícios, se é que isso é possível. Acho que sempre votei corretamente, em candidatos e candidatas progressistas, participei de manifestações, nunca fui propagador ativo de racismo ou machismo. Também sempre fui vigilante para perceber que carrego comigo muito desse racismo ou machismo. Apoio as políticas de cotas, a inclusão, a eleição de mulheres, negros, pessoas trans, acredito em uma sociedade mais justa e menos conservadora. Naquilo que poderíamos considerar a cartilha progressista ideal, sempre me esforcei para não deixar passar nada.

Recentemente, todavia, descobri que não posso – pois não seria meu lugar – falar sobre certos aspectos das questões raciais, de gênero, sexo ou afins. E descobri que os meus privilégios acabam por restringir ainda mais algumas possibilidades de fala para dentro da esquerda – embora a canhota seja muito ineficaz para bloquear os absurdos ditos pela direita. Perdi as contas, nos últimos meses, em que me mandaram calar a boca, de modo mais ou menos enfático. Nesse sentido, aliás, este é o momento em que tudo isto fica muitíssimo intrigante. Pois qualquer coisa que eu diga invariavelmente irá resultar em:

  • Alguém da esquerda que vai apontar o meu “vitimismo de homem branco hétero cis sofredor”;
  • Alguém da direita que vai se aproveitar dessa situação, de modo calhorda, para apontar o dedo contra a esquerda;
  • Alguém que vai dizer: paciência, você não tem mesmo nada a dizer sobre questões raciais, de sexo, gênero ou identidade;
  • Alguém que vai condensar isso tudo em algum comentário genérico sobre “lugar de fala”, ressaltando que, na pós-modernidade, não resta muito de objetividade mesmo;
  • Ou alguém, com mais competência que nos casos anteriores, que vai resgatar este texto, daqui alguns anos, e me cancelar. Ou vai cancelar já.

Pretendo continuar votando direitinho, indo às manifestações, reconhecendo meus privilégios etc. Nada disso muda. Só espero que alguém do meu círculo apareça, uma hora dessas, e me pergunte: Antonio, sendo professor, pobre, fodido, incrivelmente hipocondríaco, consumidor de antidepressivos, no meio de uma pandemia, como estão as coisas? E que essa pessoa não me recrimine quando eu responder: olha, tá irrespirável.

Basicamente isso. Usando a expressão que um amigo criou, eu não tenho carteirada epistemológica que melhore meu caso.

*  *  *

Perdi as contas, nos últimos tempos, das vezes em que fui recriminado por ter algumas posições “moderadas”. Deve ser o castigo por uma adolescência incrivelmente intransigente.

Enfim, nem por isso eu vou mergulhar na piscina aquecida do radicalismo.


Imagens em destaque: reproduções das capas do livro Catch-22 de Joseph Heller (1961); no Brasil, Ardil-22. A combinação de imagens foi retirada de Uma pequena mistura.

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