Doenças do capitalismo

O texto a seguir foi originalmente publicado em outra plataforma, em 8 de agosto de 2014, com o título de Mundo do trabalho: entre a patologia e a política. Trata-se de mais uma republicação na cota do cárcere avaliativo – o período anual, entre abril e dezembro, em que todos os professores estão condenados a corrigir provas.

Essa é uma reflexão sobre o sentido patológico do trabalho, sob uma perspectiva sociológica. À época, eu não tinha clareza sobre duas questões relevantes, uma prática e outra teórica, sobre as quais falarei a seguir.

Quanto ao primeiro item, ainda não havia a percepção do quão radical e profundo seria o avanço do capitalismo de plataforma, com suas consequências de reestruturação do universo da produção e trabalho. Os aplicativos ainda engatinhavam e o desmonte da legislação trabalhista não havia assumido seus atuais contornos dantescos. Em uma construção frasal típica de quem ficou velho, posso dizer que o mundo de 2014 era muito diferente do atual. Os trabalhadores ainda achavam razoável que possuíssem direitos – e não faziam campanha contra a própria aposentadoria.

O segundo elemento, de fundo teórico, diz respeito às contribuições do porquinho sociológico ao qual, injustamente, é creditada a construção da casinha de palha. Émile Durkheim (1858-1917), embora fundador da Sociologia como disciplina acadêmica, muitas vezes é ofuscado pela militância marxiana-marxista e pelos pavões weberianos. No entanto, para além de seu desenvolvimento do método sociológico, esse pensador nos deixou reflexões primordiais sobre a solidariedade social amparada nas relações de trabalho.

As sociedades, entendidas como organismos, dependem do bom funcionamento de suas partes. Cada instituição e cada indivíduo devem desempenhar, de forma adequada e solidária, suas respectivas funções sociais; desse modo, uma dinâmica de colaboração e interdependência é fundamental para que uma sociedade se mantenha unida e saudável. Naquilo que considerava sociedades complexas, Durkheim acreditava que a solidariedade estava ancorada nas relações de trabalho. Cada pessoa e cada empreendimento econômico deveriam realizar bem sua função produtiva, de modo que o trabalho de cada um, em colaboração, contribuísse para saúde do organismo social. Por outro lado, o desarranjo das relações de trabalho, a competição econômica desenfreada, a falência das normas, o mau funcionamento das instituições, a anomia, tudo isso é, a um só tempo, causa e consequência de variadas patologias sociais. Do mesmo modo que a doença de um órgão resulta na doença do corpo, a perda do sentido do trabalho significa o desmantelamento da solidariedade social e, por conseguinte, da própria sociedade.

O texto a seguir é uma tentativa de compreender como o capitalismo, principalmente no âmbito do trabalho, se converteu em gerador de patologias sociais que, por sua vez, se desdobram nos indivíduos em patologias físicas e psíquicas.


Muitas vezes, nossas vidas incrivelmente agitadas impedem a realização de alguns questionamentos que, em princípio, seriam óbvios. Caso refletíssemos de forma mais detida sobre os desafios com os quais lidamos no cotidiano, talvez chegássemos à conclusão de que os anos 2000 não são, nem de longe, a alegria tecnológica prevista no século passado. Na verdade, questões elementares do modo de produção capitalista continuam a marcar nossa existência. A busca por um trabalho (ou emprego?), o esforço para conservá-lo e o desejo de acumular recursos para os imprevistos e a velhice: esse é o roteiro básico de nossas trajetórias neste planeta. Um percurso em que as garantias são escassas, os riscos elevados e a possibilidade de satisfação, mínima.

Assim, permanece muito atual a discussão sobre as consequências do trabalho em nossas histórias de vida. Vejamos alguns pontos interessantes: temos a competição por vagas, a exigência pelo cumprimento de metas, a busca pelo destaque em uma equipe, as cobranças por produtividade e a valorização do mantra da proatividade. Também é preciso lidar com a permanente insegurança gerada pelo risco do desemprego e a pressão existente, em muitos setores da economia, para que se abandone a civilidade da CLT em favor de relações trabalhistas mais precárias. Em nossas baias, devemos dedicar o menor tempo possível à internet, mas, ao mesmo tempo, precisamos saber o que se passa na economia internacional, quais as novidades tecnológicas mirabolantes e a última piada da série televisiva estadunidense. Não obstante, ficamos impressionados com essa “inexplicável” sensação de aceleração do tempo e soterramento pelo excesso de informações. O atual mundo do trabalho estabeleceu mecanismos tão radicais de exploração dos indivíduos que, aqui e ali, ouvimos alguém falar do fordismo com saudade.

Nessa insalubridade que permeia tudo, ficamos, cada vez mais, impossibilitados de planejar nossa existência. A insegurança, inclusive, transformou-se em valor. Ao explicar conceitos ridículos como o de “geração Z”, o especialista do programa das noites de domingo nos conta que ninguém mais quer ficar no mesmo emprego para sempre, que a carteira assinada é um anacronismo e que todos devemos viver loucas aventuras no mercado, buscando a máxima satisfação no menor tempo possível. Não seja empregado: agora a moda é ser consultor de alguma coisa. De uma só tacada, morrem a estabilidade e a ética do trabalho.

Por outro lado, o que ninguém discute muito é a incrível propagação das patologias ligadas, direta ou indiretamente, ao espaço laboral. Algo que poderíamos classificar, de forma ampla, como doenças do capitalismo. Isto incluiria desde as conhecidas lesões por esforço repetitivo (LER) e os incidentes em obras civis até um extenso conjunto de condições que atormentam a psique dos indivíduos. Neste caso, a lista é imensa: ansiedades, manias persecutórias, medos inexplicáveis, neuroses, paranoias e todo tipo de enfermidade de fundo somático. Há, também, os muitos e variados episódios de pânico que presenciamos em ambientes empresariais. Gostaria de arriscar uma explicação para esse fenômeno. Em suas múltiplas possibilidades de diagnóstico, tais episódios poderiam significar a recusa da pessoa, ainda que aparentemente inconsciente, em permanecer submetida a um regime de abuso psicológico constante. Abuso que se materializaria, por exemplo, em metas irreais, chefias insensíveis, direitos ignorados ou um cotidiano de assédio moral. De forma simples, é como se a cabeça do trabalhador dissesse: você não vai mais voltar àquele inferno e, se tentar, eu vou desligar tudo. Igualmente, poderíamos citar os muitos infartos após reuniões tensas, as insônias às vésperas do encerramento de prazos e o sedentarismo forçado, de quem passa mais de oito horas diárias sentado, conferindo relatórios. Como podemos notar, diversas patologias dão concretude aos problemas do mundo laboral no capitalismo – problemas que, muitas vezes, insistimos em considerar meras abstrações sociológicas.

Todavia, acho importante esclarecer os limites deste ensaio. Não sou psicólogo, psiquiatra ou técnico em segurança do trabalho. Embora já tenha realizado algumas atividades na área de saúde e segurança de trabalhadores e ambientes de trabalho, não sou um estudioso profissional do tema. Que fique registrado, mais uma vez, que meu conhecimento médico sobre este debate é muito limitado. Isso posto, acho que as tais doenças do capitalismo merecem uma abordagem absolutamente interdisciplinar, com a atenção da medicina, psicologia, sociologia e economia. Nesse contexto, aliás, sou um antropólogo, atuando como representante honorário da sociologia e interessado em abordar as questões políticas envolvidas em toda essa discussão.

Infelizmente, as sociedades insistem em explicações parcelares para problemas claramente estruturais e sistêmicos do nosso modo de vida. Em outras palavras, nossa organização para a produção é o principal elemento gerador de situações que suprimem, cada vez mais, a possibilidade de fruição em nossa existência. Pensemos em competição desenfreada; objetivos mirabolantes; gestores de formação duvidosa; o charlatanismo da gestão de recursos humanos; políticas corporativas autoritárias; desmobilização de sindicatos; legislação trabalhista insuficiente; falta de uma rede de proteção social… Ora, seria no mínimo ingênuo imaginar que essa grande combinação de fatores não teria impactos relevantes na saúde dos trabalhadores. Mas devemos agregar uma constatação ainda mais grave. Entre tantas cobranças e demandas, com a exigência crescente de cursos, reciclagens e ganhos de produtividade, eliminamos progressivamente os valores do tempo livre, do ócio e do lazer. Nunca consolidado, atacado pela ética protestante e o espírito do capitalismo, o direito de não fazer nada parece, cada vez mais, tema de ficção.

Enfim, trabalhamos demais e de forma pouco saudável. Mas, mesmo que esse quadro seja pouco aprazível, não se trata de dizer às pessoas que abandonem seus escritórios e abracem o bucólico ofício de cultivar hortas no campo. Tampouco podemos afirmar que a gravidade da situação coloca a humanidade na iminência de uma grande revolução socialista. Acredito, porém, que é fundamental que estimulemos as pessoas a avaliarem suas vidas a partir do sentido que conferem ao seu trabalho. As sociedades precisam ser forçadas a uma análise crítica de suas contradições estruturais. Essa reflexão, por sua vez, pode ser o ponto de partida para um conjunto radical de reformas, capaz de oferecer perspectivas mais realizadoras para nossa história neste planeta.


Observação importante: conforme dito anteriormente, o autor deste texto não possui formação em áreas relativas à medicina ou saúde. O ensaio tem por objetivo apenas a livre exploração de alguns temas e debates relativos ao mundo do trabalho, sob uma perspectiva essencialmente sociológica.


Imagem: foto de Samer Daboul via Pexels.com.

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